Rodrigo Maia e o quadro de Brizola

Rodrigo Maia defende que o centro deve se unir para 2022 sob pena de ficar fora do segundo turno de novo: “vai dar Bolsonaro de um lado e candidato do Lula de outro”. Ele elencou três candidatos do espectro que chamou da “centro-direita à centro-esquerda”: João Doria, Luciano Huck e… Ciro Gomes. Os jornalistas da Globonews ficaram pasmos. Cristiana Lobo ficou desesperada e tentou emparedar o presidente da Câmara: “Mas é de centro?!”, e Maia respondeu com firmeza: “É de centro-esquerda”. Lembrou do passado, “minha primeira filiação foi no PDT”, e homenageou o falecido líder trabalhista, “eu tinha um quadro do Brizola”.

Filho de César Maia e nascido no Chile por conta do exílio do pai perseguido pela ditadura, Rodrigo tem laços antigos com o PDT e a tradição trabalhista. Com o rompimento de César com a esquerda, Rodrigo tornou-se um político conservador e neoliberal, mas defensor da democracia. Famoso por ser leal e cumprir acordos, mantém sua posição como um presidente da Câmara que se dá bem com a oposição, principalmente pelo enfrentamento ao Partido da Lava-Jato e nos freios que impõe ao autoritarismo latente de Bolsonaro. Desde a defesa de Glenn Greenwald e da liberdade de imprensa, da aprovação do juiz de garantias e outros combates ao avanço judicial contra os poderes eleitos. Maia é um elemento de estabilidade e diálogo entre as instituições republicanas e todas as forças políticas do país.

Não há que se ter ilusões. Maia é defensor do programa neoliberal aplicado por Paulo Guedes, e é isso que defende para o futuro, seja com João Doria ou Luciano Huck, e seus representantes do mercado financeiro, Henrique Meirelles e Armínio Fraga. E por isso defende que com o PDT é preciso que sejam criados espaços onde possam ser debatidos os temas polêmicos que causam profunda contradição entre o centro liderado por Maia e o programa nacional-desenvolvimentista e trabalhista de Ciro Gomes.

O que pode unir esse centro, hoje hegemonizado pelo neoliberalismo, com a esquerda é a defesa da política contra a anti-política, seja do lavajatismo seja do bolsonarismo. DEM e PDT já estão construindo muitas alianças tidas por improváveis nas eleições municipais, ambiente no qual as diferenças econômicas tem menos peso.

Em 2018 quase foi feito um acordo dos partidos de centro com Ciro. O acordo foi inviabilizado pela atuação conjunta de Temer pela direita e Lula pela esquerda. Um acordo que envolvesse DEM, PP, PL, e outros partidos menores de centro-direita, e PSB e PCdoB pela esquerda, teria tornado Ciro o candidato mais viável como demonstravam todas as pesquisas eleitorais. Ciro já tinha relações boas de longa data com empresários-políticos que compunham esse centro, como Benjamin Steinbruch e Josué Gomes. Mas os fortes antagonismos de Ciro com alvos da justiça como Valdemar da Costa Neto do PL e Roberto Jefferson do PTB, totalmente dependentes do governo Temer, jogaram fortemente contra o candidato pedetista naquele momento de acossamento do lavajatismo. E Lula jogou todo seu peso no nordeste para submeter e humilhar o PSB e o PCdoB no que Ricardo Cappelli chamou de “Domingo Sangrento“.

Esse acordo amplo passando por todo o espectro da centro-esquerda à centro-direita é o que Maia começa a propor já em 2020 para preparar concretamente uma aliança com tantas contradições internas em 2022. A questão econômica é o principal entrave. O centro é hegemonizado pelo rentismo dominante nas últimas quatro décadas que causaram a desindustrialização do Brasil, e Ciro defende um projeto nacional de desenvolvimento, que é claramente baseado na liderança do Estado para organizar o mercado em um sentido industrializante e de ampliação dos direitos sociais.

Mas o fato é que a hegemonia neoliberal não é absoluta nem eterna e Maia sabe disso, e por isso aventa a possibilidade de Ciro liderar o centro. (Atualização: Maia inclusive já começou a defender investimentos públicos para enfrentar a estagnação.) Em 2018, setores produtivos representados pelos já citados Josué Gomes, filho de José Alencar que foi vice de Lula, e Benjamin Steinbruch da Companhia Siderúrgica Nacional, deixaram claro que gostariam de apoiar Ciro. Mas o industrialismo não é hegemônico na classe dominante brasileira desde 1980. Quem formula o núcleo da política econômica no Brasil é o rentismo neoliberal através de seus representantes, como Henrique Meirelles, Armínio Fraga, e até um ator mais marginal e mal-visto no mercado como Paulo Guedes que ascendeu graças à vitória da anti-política bolsonarista impulsionada pelo lavajatismo.

No entanto, desde a crise mundial de 2008, o neoliberalismo perdeu o consenso político. O mundo todo começa a sofrer convulsões político-sociais contra a austeridade, o desemprego e precarização, e a desregulação financeira imposta pela hegemonia rentista pós-crise do fordismo nos anos 1970. A ascensão eleitoral de Trump e Bernie Sanders nos EUA, de Viktor Orbán na Hungria, os neofascistas de Salvini na Itália, da esquerda na Espanha com a aliança PSOE-Podemos e da Geringonça em Portugal, do Brexit e Boris Johnson na Inglaterra com a oposição radical de Jeremy Corbyn, os coletes amarelos na França, tudo isso é resultado do derretimento da capacidade do neoliberalismo de criar consensos sociais. À direita e à esquerda, com demagogia ou com populismo de verdade, com racismo e xenofobia ou com a defesa da solidariedade e direitos sociais, o fato é que a política mundial está em transição.

A regulação neoliberal do pós-fordismo, portanto, entrou em uma crise irreversível. Quem atender aos problemas concretos das populações, articulando discursos populistas capazes de unificar os diversos segmentos dos povos nacionais contra inimigos comuns que representem a crise econômica e social, dará o tom da estruturação do novo regime de acumulação e de seu modo de regulação que surgirá dessas gigantes transformações geopolíticas e geoeconômicas.

No Brasil, como em todo país subdesenvolvido e dependente, a hegemonia neoliberal é mais difícil de ser destruída pois apoiada no imperialismo e suas muitas ramificações. O imperialismo se expressa principalmente ideologicamente nas mídias tradicionais e novas, coercitivamente como no Partido da Lava-Jato, economicamente nos financiamentos da política, e cruelmente até na própria esquerda hegemônica até então. Já se tornou quase (infelizmente ainda não) lugar-comum a compreensão de que PSDB e PT eram as duas pernas, direita e esquerda respectivamente, do neoliberalismo brasileiro nos anos 1990 e 2000.

De qualquer forma, essa hegemonia rentista e desindustrializante está rachada. As reformas neoliberais como a da previdência estão passando à despeito dos ânimos populares, que estão movidos pela guerra híbrida instalada no país através da anti-política e suas diversas manifestações: a histeria falso-moralista do autoritarismo judicial, os identitarismos de direita e de esquerda alimentando ressentimentos, e inclusive a manipulação pura e simples através dos mecanismos de controle das redes sociais.

Dessa forma, quando o debate social vai para campos mais racionais e concretos envolvendo as necessidades e desejos materiais do povo, o neoliberalismo mostra-se impopular e se desmancha no ar como tudo que é sólido. Mesmo a classe dominante começa a enxergar a necessidade de manobrar o regime de acumulação nesse sentido. Apesar do austericídio no orçamento com os cortes nos investimentos e nos gastos sociais, e das reformas em favor do mercado financeiro, os editoriais dos jornalões neoliberais começam a apontar o problema da desindustrialização, o racha na FIESP contra o neobolsonarista Paulo Skaf, e até os representantes do mercado como Armínio e seu menino de ouro da Globo, Luciano Huck, apontam que sem alimentar o povo é impossível continuar multiplicando as rendas dos financistas. Mas essa curva ideológica ainda é muito tênue.

A principal manobra de adequação ao novo estado econômico do mundo foi a queda brutal das taxas de juros para níveis compatíveis ao novo padrão do mercado internacional, e ainda é uma manobra tímida devido à concentração bancária e financeira no Brasil, que gera distorções nos juros que chegam realmente à população de pessoas físicas e às empresas geradoras de empregos. O fato é que sem uma intervenção estatal mais profunda na organização do sistema financeiro e sem os investimentos públicos, não haverá solução para o marasmo econômico brasileiro pós-crise. Esses são os pontos decisivos e contraditórios que Maia tem em mente quando diz que precisam ser discutidos os “temas polêmicos” entre a centro-esquerda e a centro-direita. Ter escolhido Ciro e o PDT para isso não é pouca coisa.

A mudança do eixo central da política brasileira de um centro rentista liderado pelo establishment paulista tucano-petista para uma nova estruturação baseada em diálogos entre o DEM carioca e baiano, e o PDT liderado por um cearense, seria uma transformação tectônica na correlação de forças partidárias do Brasil. No entanto, é uma possibilidade que depende de muitas variáveis não controladas pelos protagonistas, mas bastante promissora diante das mudanças mundiais e do terremoto pelo qual passou o Brasil com a ascensão do populismo de extrema-direita bolsonarista e o autoritarismo judicial que vieram para destruir o sistema político brasileiro.

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