Sem teoria crítica não há luta política revolucionária

É preciso, hoje mais do que nunca, resgatar para os movimentos de esquerda a conhecida frase de Lênin de que sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário. Reafirmo com todas as forças a necessidade de uma teoria crítica que consolida uma consciência revolucionária ainda que a revolução não esteja na pauta do dia, visto que as transformações que os movimentos sociais de esquerda visam só podem encontrar sua plena afirmação em uma sociabilidade que não é a do capitalismo, mas cujas lutas acabam restringidas aos estritos horizontes do Estado e do direito e, portanto, aos estritos horizontes da acumulação de capital.

A importância da teoria crítica e de um comportamento político crítico advém do fato de que ao se mirar as estruturas e a totalidade das relações sociais e dos fenômenos é possível extrair-se mais dos fatos que se apresentam além de apreensões fragmentadas, unilaterais desses fatos, própria de uma racionalidade técnica da modernidade capitalista.

A profunda compreensão da realidade e da não neutralidade dos instrumentos de luta política é essencial e decisivo para que seja possível uma efetiva organização política e criação de estratégias de ação política, e para que se visualize que o agravamento das oposições sociais e da miséria crescente do ser humano não ocorre devido a fatores externos, mas faz parte da própria lógica de funcionamento da sociedade do capital (este sujeito autômato).

É certo que a conjuntura nacional que se apresenta diante de nós e a derrocada generalizada (mundial) do que um dia foi o projeto hegemônico do “Estado de bem-estar social”, própria do regime de acumulação fordista, nos leva a tempos arrebatadores de desesperança ao observarmos a regressão antropológica generalizada que decai infinitamente em direção à barbárie.

Essa desesperança torna-se ainda mais improvável de ser revertida quando se verifica, por um lado, um posicionamento pessimista e até mesmo niilista por parte daqueles que chegam a uma compreensão profunda da realidade e; por outro lado, um fôlego de vontade de ação revolucionária esvaindo-se no chão das opiniões e nos poucos avanços em face de grandes retrocessos.

Quando falamos, no entanto, em teoria crítica, não se trata de qualquer teoria e também não se trata de qualquer crítica.

Não basta que se aponte pontualmente para as injustiças da sociedade a partir de uma apreensão sensível de um conjunto de fatos já dados, isto é, uma apreensão imediata e unilateral da realidade que se apresenta como uma sequência de aparências, pois a superfície que se apresenta vela suas dinâmicas estruturais de forças-antiforças e o sujeito que apreende está já sujeitado, pois ele mesmo é um produto da história constituído por uma série de determinações que naturaliza e reitera os termos da reprodução de sua realidade, que é a realidade do capitalismo.

A teoria crítica, nesse sentido, está relacionada à compreensão materialista histórica da realidade a partir de uma razão dialética, em que as relações sociais são analisadas em sua totalidade, com a compreensão das contradições estruturais de sua dinâmica.

Mas não se trata apenas disso.

Se trata também, e isto é central, do apontamento da superação dessa realidade, que parte de uma representação de libertação que não se trata de uma utopia idealista, mas uma representação que funda-se na possibilidade real de liberdade, e esse processo (compreensão do materialismo histórico, razão dialética e transformação qualitativa) é a função da teoria crítica, que não é uma teoria utilizada pela práxis, mas que é parte integrante desta.

O pensamento crítico, assim como o comportamento político crítico, não parte de um movimento que se inicia na esfera da subjetividade, como um processo cerebrino, intelectivo. Pelo contrário. Ele parte de uma necessidade real, proveniente da natureza (e a natureza aqui é a natureza socialmente e historicamente constituída), porque as contradições de nossa sociabilidade são efetivamente vivenciadas, mas que ao mesmo tempo é uma necessidade que opõe-se à essa mesma natureza.

Disto decorre que o sujeito que alcança a consciência crítica não é um sujeito que transcende os demais sujeitos, e sim aquele do presente momento histórico (não havendo como ser outro), mas que se trata da própria potência, a partir de uma vontade gerada pela necessidade real, de realização daquilo que ainda não é.

A teoria crítica deve também estar em constante transformação.

Ainda que sua estrutura permaneça a mesma, considerando que o desenvolvimento histórico do capitalismo assente-se sobre uma estrutura fundamental (isto é, constituído pelas categorias do trabalho, valor, mercadoria, etc.), ela deve ser capaz de dar conta das diferentes conjunturas políticas, dos diferentes arranjos institucionais e fases de reorganização do capitalismo com as alterações no regime de acumulação e no modo de regulação.

Concluo aqui minha exposição com a seguinte questão: a tomada de consciência critica, que influi na práxis em um mesmo movimento, não leva gradativamente ou linearmente a uma nova forma de sociabilidade. É um processo de luta de forças e antiforças, e a transformação é a própria ruptura qualitativa.  A possibilidade real dessa ruptura reside na própria lógica do capitalismo, na medida em que se trata de uma contradição em processo e que determina as relações sociais e os arranjos institucionais de sua sociabilidade, mas que também abarca em si a possibilidade real de sua negação histórica.

É com esta possibilidade real que ficamos.

Continuemos a luta.

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