A sedução do senso comum em meio à deriva dos políticos e à arrogância dos intelectuais

À desarticulação das forças democráticas sem condições ainda para derrubar Bolsonaro junta-se a arrogância de certos intelectuais que se sentem à vontade para determinar quem entende e quem não entende de política. Muitos deles, desconfio, são os que defendem, em alto e bom som, a democracia, mas, uma vez no poder, não vacilam em adotar posições autoritárias.

Do alto de suas cátedras, sempre se apresentando como especialistas (embora a democracia não seja atribuição de especialistas), esses intelectuais mostram-se contraditórios ao afirmarem que eleitor nunca é burro e que, em 2018, esse mesmo eleitor foi coerente ao votar no capitão. Em contraste, segundo esses intelectuais, analistas dos mais variados campos “não entendem de política” quando emitem suas opiniões ao sabor da celeridade midiática.

A pergunta é: o eleitor de Bolsonaro é inteligente e inequívoco, mas as pessoas em geral que o criticam não são, com suas avaliações e apostas, mesmo equivocadas? O eleitor de Bolsonaro é mais sagaz e politizado que os internautas que fazem suas interpretações, discursos, digressões, desabafos e sinalizações diversas?

Outro aspecto contraditório da postura desses mesmos intelectuais é o esquecimento dos números das últimas eleições, que revelaram muitas coisas para além de um suposto apoio da “maioria do povo brasileiro”. Talvez esses números sejam interessantes para lembrar sempre que Bolsonaro obteve maioria dos votos válidos, mas não a maioria da sociedade brasileira.

Mais um aspecto paradoxal é o fato de certos intelectuais sacarem do bolso resultados de pesquisas, porém, esquecendo que muitas delas podem ser elaboradas e produzidas para determinados objetivos políticos, não espelhando de forma profunda a realidade contraditória.

Não se defende aqui que pesquisas, em geral, sejam mentirosas ou fraudulentas. Mas, elas fazem parte também do jogo político e podem ser elaboradas e produzidas com finalidades bem definidas, porém, não visíveis ao senso comum, dependendo de quem as encomenda. Da mesma forma, notícias são constructos baseados na hierarquização de informações, fotos, diagramação, imagens e outros elementos da produção jornalística. Descrições não são meras descrições, mas sim interpretações dos fatos.

Ora, assim como o voto, fazemos apostas ao analisar notícias que perecem rapidamente – “fatos” que duram apenas um dia. Faz-se apostas em análises baseadas em episódios com prazo de validade curtíssimo. Muitos desses episódios são construídos como simbologias e balões de ensaio para fins de marketing político, sem resultados imediatos a curto prazo.

Como parte do jogo da campanha eleitoral com objetivos posteriores, não é de hoje que a trama do “discurso político” se utiliza mais de imagens televisivas e fotos e vídeos nas redes sociais do que de argumentos articulados em discursos baseados na palavra e promessas de soluções para os problemas – vale dizer, em programas de políticas públicas.

Esses intelectuais ficaram impressionados com o ato de Bolsonaro no domingo, mas não pararam para se perguntar se aqueles grupelhos barulhentos têm alguma expressão numérica significativa. Deixaram de perceber que não se trata de mais um ganho do jogo em andamento, mas sim mais um lance inerente à lógica de movimentação do governo.

Chegou a ser flagrante a articulação do marketing de campanha com imagens no mesmo domingo. Evidentemente, tudo combinado: pequenas manifestações aqui e ali e a imagem de um dos filhos do presidente com um grupo de amigos disparando suas armas num clube de tiro. Como Bolsonaro não tem conteúdo de políticas públicas, vai se mantendo na sua pirotecnia eleitoral.

É verdade até que o aspecto quantitativo pode ser irrelevante comparado ao barulho e a força das imagens. Afinal, estas se propagam de forma intensa e extensivamente pelos meios de comunicação e redes sociais, dando a entender que são massivas e nacionais.

Os mesmos intelectuais que criticam os que “não entendem” de política até agora não pararam para se perguntar, muito menos, claro, responder, por que a sedução, no jogo atual, não tem sido pela explicitação de políticas públicas. Mas sim pela pirotecnia de gestos tresloucados e muito bem construídos. Não vale responder dizendo que Bolsonaro não tem conteúdo. Ora, isso é evidente.

A questão é mais profunda: por que o debate de políticas públicas não têm interessado aos eleitores? Ou melhor, o que, de fato, tem interessado aos eleitores num país cuja economia patina há várias anos?

Incrível e singular situação das forças democráticas. Bolsonaro foi eleito fazendo a campanha da não política, sem aparecer nos debates, sem falar de políticas públicas e sem perder tempo de fazer suas ameaças ao país inteiro. Acordemos! Bolsonaro já foi uma ameaça. Hoje ele é o rolo compressor e destruidor em ação já desde muito antes de assumir o governo no ano passado.

Entretanto, a tal “democracia deliberativa” já foi destruída pela “democracia delegativa”, que se forjou na mentira. Talvez não só os políticos, mas também muitos intelectuais precisem se livrar de certos purismos ideológicos, pois o jogo em andamento (inclusive o próprio debate teórico) parece requerer táticas e estratégias fora do registro costumeiro.

A inércia de muitos e a arrogância de outros abrem espaço imenso para Bolsonaro dizer que a Constituição “é ele” – o que, contraditoriamente, chega a ser alvissareiro. Afinal, um desses reis que gostavam de dizer l’etat c’est moi acabou na guilhotina. Mas, muitos intelectuais insistem que Bolsonaro é inteligente, e o resto…

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