Sergio Moro afronta Brasil como soldado de guerra híbrida

Não bastasse a reportagem publicada pela revista VEJA, o ministro da Justiça continua dando um tapa na cara do Brasil com a arrogância dos ditadores que se julgam impunes e intocáveis. As novas revelações do The Intercept divulgadas neste domingo pela Folha de São Paulo confirmam, como tantas outras informações já divulgadas, que o ex-juiz sempre esteve a serviço do imperialismo estadunidense. Um juiz que investiu contra a soberania do Brasil e da Venezuela, como agora se comprova.

Entretanto, ditaduras precisam do mínimo de legitimidade axiológica para se manter, além dos fatores concretos da realidade sempre em conflito. A “hybris” dos fascismos provincianos caracteriza-se pela miopia em relação às possibilidades formais frente as materiais. É a crença de que a vida sempre vai se conformar à regra imposta por uma suposta norma, no caso, os procedimentos do ex-juiz e do agora ministro investido de uma função passageira. Mas a vida é incontrolável em última instância.

Pode ser que essa nova ditadura não seja tão passageira em face do espírito neoliberal insidioso que penetra diferentes dimensões da vida social, para além e aquém do político e do econômico. Tal espírito se instala também nos comportamentos individuais das pessoas, através dos apelos mistificadores, em seus costumes. Estes perpassam valores culturais, numa mistura esquizofrênica de cegueira e brados de defesa de princípios em que religião e política se adequam perfeitamente à histeria moralista de parcela conservadora da sociedade.

Sérgio Moro faz parte e aproveita desse obscurantismo, esquecendo, talvez, que a temporalidade finita dos conflitos é inexorável em momentos decisivos quando, por exemplo, a maioria dos desfavorecidos fica emparedada, não tendo para onde correr ou a que ou quem pedir socorro. Com certeza, não será desse governo que o socorro virá para a maioria que não tem mais onde respirar o pouco que resta de bom senso e critérios para se encontrar mecanismos de redistribuição de bens materiais e simbólicos, vale dizer, das possibilidades de vida presente e futura.

O ministro suplanta o presidente da República em termos de audácia num perigoso e incerto jogo para ele mesmo. Lança dados com as palavras, com a desinformação alheia em artimanhas populistas no conforto das poltronas e dos protocolos do poder, esquecendo o princípio da alternância rotineira e da suposta e falsa unanimidade. Todo fundo de poço político e econômico encontra vermes em limites que não são possíveis mais serem ultrapassados porque a escuridão é a última parada. Depois, só resta uma reversão e um desmantelamento de tudo o que fez chegar a essa lodaçal.

Entretanto, para os que acham que o Brasil é uma cocheira, fácil ir lidando com os apelos grotescos do medo e da falta de perspectiva dos que não têm emprego, cultura, recursos para viajar, além de segurança mínima, lazer diversificado, sem falar de um futuro para si e seus descendentes. E aqueles que acreditam num país reduzido a uma situação maniqueísta entre corruptos e não corruptos, oportuno regular as lentes para um poliedro mais complexo – qual seja, o de que fazer justiça com as próprias mãos ainda é proibido por lei e que cada caso é um caso, cada sentença é uma sentença. Isso, para lembrarmos aos incautos que não se quer impedir o combate à corrupção, mas sim defender o tal estado democrático de direito.

O caso de Sérgio Moro pode não ser ainda um caso perdido para ele que está ministro da Justiça. Mas o será um dia quando as forças progressistas retomarem a democracia com suas próprias mãos, incluindo nessas forças promotores e juízes democratas e não corruptos para, enfim, arrumar a casa. Pois, corrupção existe, sim, e de vários tipos. A maior de todas tem sido essa de desmantelar o Brasil jogando uma densa cortina de fumaça sobre corações e mentes divididos e desorientados em situação típica das guerras híbridas que o neoliberalismo inventou nessa nova fase do capitalismo.

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