Algumas observações sobre a política brasilis hoje

– O governo Bolsonaro está longe de estar em crise e não cairá amanhã ou na semana que vem, mas certamente sofreu um desgaste hoje, tanto social quanto institucional, um desgaste incomum e ameaçador para quem não tem sequer 5 meses de governo. Dificilmente o bolsonarismo emplacará nas ruas uma manifestação desse porte, e as redes bolsonaristas subterrâneas de Zapzap, bastante ativas nesse momento, não possuem a mesma força em pleno governo, fora de campanha. O eleitor bolsonarista médio ainda não se arrependeu, mas já não está mais tão empolgado quanto há poucos meses e isso é um péssimo sinal para o governo. Tudo isso é uma ducha de água fria nas pretensões de uma delirante “revolução olavete” para instaurar uma “democracia direta da maioria conservadora”.

– A abrangência das manifestações opositoras (potencializada pela cobertura simpática da grande mídia, certamente não por motivos nobres mas que seja), além de colocar a oposição no centro do palco, também encarece o preço da negociação parlamentar. Enquanto Bolsonaro não oferecer cargos ao “centrão” e não parar de tentar terceirizar a impopularidade do seu governo aos congressistas sem dar nada em troca, a tensão com o Congresso continuará subindo, esse continuará assumindo papel maior na negociação direta com as elites financeiras e provavelmente o parlamentarismo (e não “golpe militar”) voltará a ser cogitado abertamente pelas oligarquias brasileiras como forma de agilizar o desmonte do país e consolidar o domínio da plutocracia financeira.

– As manifestações de certa forma reativaram o campo nacional-popular, cuja última presença foi na “greve geral” de 2017 (tomara que não morra na praia como aquela nem seja tomada por arruaceiros e bandidos mascarados/black blocs). Voltou ao centro do palco com pauta e demarcação de território claras, e espero que dele não se retire. Foi bastante positivo que a agenda social tenha se sobreposto à identitária e que a belíssima bandeira brasileira tenha finalmente sido mobilizada a favor do progressismo, sinalizando um viés nacional cada vez mais forte nas lutas sociais. Nossa bandeira precisa ser muito mais usada, deve virar um símbolo da defesa do país/da sociedade contra as ingerências externas e a ganância das oligarquias daqui, como os peronistas usam a da Argentina, por exemplo. O efeito político disso será bastante proveitoso para a esquerda e para o país. É um crime a esquerda deixá-la nas mãos dos canalhas de extrema-direita, que desprezam seu próprio país.

– O dia de hoje resumiu quem é Bolsonaro: um mero capitão-do-mato dos EUA. Xinga os estudantes brasileiros direto do Texas e conversa com George Bush (um dos ícones do globalismo que os bolsonaristas fingem atacar) sobre como impedir a cada vez mais provável e sempre desejável e necessária vitória da Cristina Kirchner na Argentina.

– Uma observação quanto ao conteúdo de alguns dos cartazes de hoje: livros não necessariamente se opõem às armas. Maquiavel, por exemplo, escreveu bastante sobre a necessidade de um Estado e um povo bem armados e disciplinados para haver uma República estável. Maquiavel é sempre uma referência interessante.”

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