Sócrates aceitou as regras do jogo e deu no que deu para ele e para nós

Pretensão minha seria sentenciar aqui sobre o legado deixado pelo filósofo grego ao pagar com a própria vida por ter se submetido às regras do jogo. Não tenho essa bagagem.

Com humildade, porém, assumo e conjecturo ao acreditar que Lula tem muito o que contribuir ainda para o avanço da democracia. Isso, mesmo considerando erros e acertos dos governos de 2003 a 2016.

Nenhum governo no mundo só acerta ou só erra. Talvez Bolsonaro seja uma bizarra exceção com seus erros e absurdos. O caráter expansivo e contraditório do capitalismo assedia governos e populações. Algumas sociedades que estavam bem ontem estão em situação pior hoje.

Lula está dando demonstração de enorme grandeza ao questionar a progressão para o semiaberto a que tem direito. Tem que ser solto, e o processo e a condenação têm que ser anulados. Mas, ele aceitou ser preso. Podia ter se exilado…

Resiste à progressão, mas duvido que não cumpra. E duvido também que o movimento democrático não se beneficie com mais abertura pelo benefício legal, ainda que com a meia bomba da situação política (transformada em penal) dele.

Nossa democracia anda menos que semiaberta. A quebra das regras do jogo foi geral desde o golpe contra Dilma, só para citar a abertura dessa Caixa de Pandora em 2016. E uns bobinhos ainda ficaram discutindo se era golpe ou impeachment.

De todos, só Dilma e Lula respeitaram até agora as regras do jogo. Juízes e promotores de várias instâncias quebraram as regras do jogo com a maior desfaçatez cheios de amavios em suas retóricas pretensamente civilizadoras.

Políticos de vários partidos quebraram as regras. Temer quebrou as regras, esse pessoal hipócrita do PSDB quebrou as regras e Bolsonaro também quebrou as regras, anunciando toda hora que as regras precisam ser quebradas. Sem falar de empresários e outros…

O processo político é errático. Ocorre em contradições em diversas arenas. Não dá para neutralizar, numa tacada, todas as espadas que colocaram sobre a cabeça de Lula.

O jurídico se interpenetra no político e ao econômico. Ideias e valores anunciadas como princípios não bastam. Nosso presidencialismo de coalizão ainda vigora. Sem falar que há tanta vida lá fora…

Se não se pensar e agir estrategicamente, a progressão de nossa democracia tende mais para regime fechado do que qualquer horizonte mais arejado. Lula livre, mas ampliando agora também, ainda que nessa situação anômala, a nossa necessária máquina de guerra pela democracia.

Deixe uma resposta