Sorrias por mim, Argentina

Passaram-se pouco mais de 24 horas da vitória de Alberto Fernandez nas prévias das eleições argentinas e o mercado financeiro já deu seu recado: queda da bolsa e desvalorização do peso. O mercado que é movido a expectativa, se surpreendeu com a reação do povo argentino, que é movido de realidade. A larga distância entre os vencedores e o derrotado Macri, é fruto da eficaz estratégia de Cristina Kirchner, que ao assumir o papel de coadjuvante, abriu mão do culto a si próprio para retirar do debate político a faceta arriscada de Macri versus Cristina, e assim conduzir o debate para o campo das ideologias, confrontando o peronismo versus liberalismo. O saldo final mostrou que a decisão foi acertada. Sem resultados atraentes, ao contrário, agravando todos os índices que podem garantir a qualidade de vida e o desenvolvimento econômico, o neoliberalismo argentino perdeu o potencial de encanto com a habitual venda da ilusão.

A reação instantânea do mercado financeiro mostrou que quem perdeu as primárias não foi só o Macri, foi o próprio mercado. Ele não quer sair do jogo. Incapaz de produzir argumentos que vão além da expectativa para convencer o povo argentino que sofre, só sobra ao mercado financeiro querer induzir o processo democrático. As estratégias já são as conhecidas: terrorismo, boicote, chantagem. Os investidores vão agora, como o perdão do trocadilho, investir pesado na construção de uma retórica do caos (como se já não estivessem no caos).  É a mesma coisa do livre arbítrio cristão, mas na versão mercado financeiro. Você pode escolher o pecado, mas saiba que o inferno te aguarda; você pode votar contra os liberais, mas viverás na crise. E se engana quem pensa que isso não vai continuar. As táticas de manutenção de domínio político pelo mercado financeiro passam pela manipulação da democracia por meio do terror. Eles não têm outro caminho, precisam espalhar ao máximo a ideia de que o Estado não pode resolver os problemas da sociedade para que consigam enfraquecer o meio político e dominar o Estado para resolver os seus. Por isso, não é exagero afirmar que a lógica neoliberal se forma com a prática de: o Estado para mim e você por você mesmo. Quando se é oposição, fica mais fácil espalhar essa ideia, pois basta levantar as críticas, as denúncias e vender o sonho de progresso e enriquecimento em um contexto de neoliberalismo, que tem na essência da própria palavra o aspecto positivo de ser livre. Mas quando já está no poder, precisa apresentar resultados e se eles não vêm, a alternativa é reforçar o medo do futuro. O mercado financeiro é impessoal, não tem documentação e nunca será responsabilizado pela desigualdade, pelo desemprego e pelas gerações perdidas. Entretanto, seus porta-vozes passam pelo crivo do voto.

O Brasil e a Argentina, com alguns anos de distância entre um e outro, estão vivendo contextos parecidos, pois ambos estão enfrentando as investidas neoliberais em processos democráticos. Como a Argentina se antecipou, pode nos servir de maquete. E se o dito popular afirma que tudo na vida serve de aprendizado, que nos fique a lição que, para quem ainda não entendeu, pode ser aprendida com as respostas para três perguntas:

    1. Por qual motivo interessa ao mercado financeiro escolher um presidente se os empresários e investidores que o compõem são autossuficientes?
    2. Se o mercado financeiro e os cidadãos têm objetivos diferentes, como o governo pode atender os dois ao mesmo tempo?
    3. Se estamos em crise, por que o meu poder de compra reduziu e o lucro das instituições financeiras aumentou?

Parece que o cidadão argentino já entendeu isso. O povo brasileiro, ainda não. Por isso, enquanto a claridade não chega aqui, sorrias por mim, Argentina.

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