Subdesenvolvimento e Construtivismo

Já falamos aqui sobre como o moralismo e o identitarismo permeiam o debate político atual. Hoje falaremos sobre a fonte “construtivista” de onde brotam esses valores e como isso obscurece o verdadeiro fato em torno do qual deveríamos nos mobilizar.

Repassando:

 

  • Moralismo: é a cínica superioridade ética que fundamenta o discurso do “salvador da pátria”. Aparece quando o consenso político apresenta sinais de desgaste e grupos supostamente desvinculados da “sujeira que aí está” se erguem de maneira oportunista. Seus resultados costumam ser a redistribuição de vantagens, e não a correção dos rumos. O atual representante dessa tendência é o Poder Judiciário. A corporação abriga um largo número de membros cujas rendas excedem o teto da categoria, recebem auxílio-moradia mesmo possuindo imóveis em nome próprio, e somam vários privilégios incompatíveis com a missão vigente de “passar o Brasil a limpo”.
  • Identitarismo: é o fenômeno ideológico segundo o qual a reparação das injustiças históricas sofridas por certos grupos sociais deve ser resolvida pela formação de blocos de identidade capazes de operar a inclusão dos indivíduos que o compõe. Mulheres, negros, homossexuais, judeus etc., são convocados a integrar seus respectivos “lugares de fala”, a partir de onde as linguagens historicamente oprimidas poderão ecoar, restringindo as vozes que não se identificam. Apesar das demandas legítimas que fundamentam o identitarismo, o individualismo organizado em bolhas exclusivas acaba reafirmando seu exato contrário: grupos que jamais sofreram qualquer tipo de desvantagem social associada a sua natureza também passam a reivindicar o próprio lugar de fala (brancos, heterossexuais, homofóbicos, “homens de bem”, carnívoros ou o que quer que sejam). Entre um pólo e outro dessa zona de mútua exclusão, não há diálogo.

 

A convergência dos vetores moralistas e identitários fratura o tecido social, pois esgota o horizonte de futuro ao privilegiar agendas oportunistas e desfaz a identidade de um povo conforme impossibilita qualquer cruzamento entre os diversos “lugares de fala”. A insatisfação atual do brasileiro comum, em certa medida, pode ser atribuída à esterilidade desse cenário. Dentro dos limites pré-estabelecidos por esse valores há um verdadeiro beco sem saída.

CONSTRUTIVISMO

A direita e a esquerda no Brasil, com exceção das suas vertentes nacionalistas, encontram-se perdidas em mistificações a respeito da realidade nacional. Não compreendem o centro do problema pelo qual passa o país, e nem sequer dominam o instrumental necessário para compreendê-lo.

Se no passado uma parte importante dos movimentos portadores de ideologias transformadoras orgulhavam-se do seu limitado materialismo, há tempos essa reivindicação da objetividade radical como campo para a ação aparece somente como retórica. O identitarismo e o moralismo não se importam com a concretude da transformação política, econômica e social, só com os seus discursos. Não é à toa que as redes sociais, face digital da discórdia verbal, se tornaram o local predileto de ativistas e militantes, substituindo as ruas sem fôlego.

A razão disso é o construtivismo como leitura da política, ou seja, a crença de que a verdade dos fatos pode ser disputada pelos discursos, manipulada e construída conforme a narrativa dada pelos que tem o poder de impô-la. Um grande exercício de relativismos.

Daí parte a ilusão de que bastaria uma afirmação como “colocar o país nos trilhos” para restabelecer a “confiança” de uma população que chegou a somar 14 milhões de desempregados. Tampouco surtiu qualquer efeito extenso dizer “não vai ter golpe”, quando não se garantiu as alianças necessárias para evitá-lo, ou mesmo dizer que “não é hora de uma esquerda frouxa”, quando o histórico da primeira década e meia do século XXI revela a total desmobilização popular orquestrada por parte das forças de quem o diz.

O que vivemos nos mostra não apenas a insistência dos fatos, mas como esses fatos ignoram os discursos que emitimos sobre eles. Todo experimento que desconhece isso soa vazio de significado.

É um sintoma do pós-modernismo aplaudir a relativização ampla da facticidade da política. Afirmar a multiplicidade dos “lugares de fala”, a diversidade multicultural e o pluralismo de identidades nada mais faz do que relativizar vastamente o núcleo comum de demandas que poderiam mobilizar este conjunto de indivíduos separados pela parede imperfurável do identitarismo. Da mesma forma, essa tendência torna verdades incontestáveis cada uma das relativizações oportunistas pautadas pelas agendas moralistas que despontam.  

CONSTRUTIVISMO E CRISE

Quando num momento de dissenso político, certos partidos, corporações, a mídia concentrada e os grupos internos influenciados pelo capital estrangeiro decidem construir a sua própria visão da história, do passado recente e do futuro do país, nos deparamos com um choque de valores de proporções enormes e cujos resultados são incalculáveis.

Diante da inexistência de consenso mínimo sobre as direções políticas do país, o construtivismo colabora para a edificação do cenário perfeito para o esgotamento das possibilidades nacionais. Quanto mais se estende a questão, mais se desarticulam os vínculos que um dia nos identificaram como Nação.

Os mais diversos véus ideológicos acabam por ofuscar a concatenação dos fatos sucessivos que conformam a história do nosso país. A simplicidade da alternativa que seria debruçar nossos olhares sobre a própria história dá lugar a imensa tarefa de filtrar desse emaranhado de distorções os fatos que constituem a nossa identidade.

Naturalmente, não há visão que não carregue de antemão um certo conjunto de valores, ou interpretação do mundo que não seja ideológica, por mais neutra que pretenda ser. Isso não nos autoriza, no entanto, a desqualificar os fatos por conta das inúmeras formas possíveis de descrevê-los. Não devemos de modo algum secundarizar os fatos em função da perspectiva que temos deles.

O imprescindível é localizar qual é o fato central que impede a realização dos nossos potenciais e que estabelece os parâmetros do nosso problema principal.

O CENTRO DO PROBLEMA: O SUBDESENVOLVIMENTO COMO FATO IRREFUTÁVEL

O economista norte-americano W. W. Rostow propôs um esquema teórico para analisar a trajetória de cada economia nacional. Seu trabalho tornou-se um clássico por interpretar que há um conjunto de cinco etapas lineares pelas quais todas as economias passam até se tornarem desenvolvidas.

A fragilidade dessa doutrina logo se percebeu. É de Celso Furtado (1920-2004), maior economista brasileiro, a ideia de que o subdesenvolvimento não constitui uma etapa do desenvolvimento. Para ele, o subdesenvolvimento é uma especificidade, uma conformação  histórico-estrutural, que decorre da consolidação da posição de um país na hierarquia da divisão internacional do trabalho como consumidor da tecnologia propagada a partir dos países desenvolvidos e exportador de bens muito menos sofisticados e mais sensíveis aos ciclos e crises de demanda internacional: a economia mundial capitalista é dividida entre países centrais e países periféricos, e a linha que os separa é a capacidade de produzir e difundir progresso tecnológico.

O caminho trilhado pelos países que hoje consideramos desenvolvidos, portanto, deve nos servir tanto de exemplo como de alerta, dado que possuímos nossa própria especificidade histórica e que eles pregam aos países periféricos exatamente o contrário do que fizeram.

Um bom exemplo é a questão da liberdade de mercado e do livre-comércio. A história do sistema internacional moderno deixa claro que o liberalismo só é praticado com ressalvas e quando os Estados, através de políticas ativas, já estruturaram seus sistemas econômicos nacionais suficientemente, capacitando-os para a competição no mercado internacional.

Assim foi a história da Inglaterra, dos Estados Unidos, da Alemanha, do Japão, da Coréia do Sul e agora da China. Toda a história do capitalismo confunde-se com a formação dos Estados nacionais, e isso é um fato.

Após as crises globais da década de 1970 e as reformas neoliberais que se seguiram nas décadas de 1980 e 1990, disseminou-se a crença de que a era dos Estados havia terminado e que o mercado globalizado passava a ser a nova realidade internacional. No Brasil vivemos desde então a desanimada querela entre os defensores da primazia do mercado e os apoiadores do mercado humanizado.

Passada uma década da crise financeira de 2008, o mundo observa atônito um certo ressurgimento do nacionalismo. Para o espanto de muitos, porém, o nacionalismo nunca saiu de cena. Onde permaneceu com mais força foi onde melhor instrumentalizou as nações para lidar com o desafio do futuro que está por vir. Não há dúvidas de que a China se encontra mais preparada do que o Brasil.

Tamanha é a encruzilhada diante da qual nos encontramos: para evitar a queda no abismo aos nossos pés seremos obrigados a superar o relativismo construtivista, o moralismo salvador da pátria e o identitarismo apartador aos quais nos apegamos e reafirmar o engajamento das forças nacionais na luta contra o subdesenvolvimento brasileiro.

Afinal, não há relativização que nos permita escapar do enfrentamento com os problemas concretos que a política, a economia e a formação histórica do país nos impõe. Tampouco é possível relativizar a importância dos Estados nacionais, a realidade da economia internacional e a posição correspondente que o Brasil ocupa nela.

Como afirmou o ex-líder chinês Deng Xiaoping, “Desenvolvimento é a única verdade. Se nós não nos desenvolvermos, seremos intimidados”.

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