Surfamos apenas as ondas do dia-a-dia

Os grandes jornais divulgam as imagens das praias de São Paulo e Rio de Janeiro lotadas. Não são apenas as manchetes que demonstram ares de indignação, os comentários dos leitores também, todos perplexos.

E, realmente, essas imagens são espantosas num país em que 127.0001 vidas foram ceifadas até o momento[1]. No entanto, acredito que as críticas que têm sido feitas não desvelam o problema central, tampouco a crítica moral apresenta as raízes desse problema.

Todavia, há algo mais espantoso em jogo. Em verdade, o ‘isolamento social’ já acabou para a maioria dos brasileiros faz muito tempo. Para alguns, isso nem existiu. As pessoas continuaram a pegar ônibus, metrôs e trens lotados como antes.

A pandemia serviu para escancarar que a vida de milhões de brasileiros e brasileiras é supérflua e descartável. Aliás, algumas vidas sequer existiam para o governo, foram denominadas ‘invisíveis’ e apenas apareceram após a deflagração da doença.[2]

Fala-se em Brasil, mas essa é a situação mundial. Cita-se, por exemplo, o caso italiano, onde em Bérgamo caminhões do exército levavam corpos e mais corpos vitimados pela Covid-19, imagem que foi manchete de vários jornais pelo mundo, mas as fábricas se mantinham funcionado a todo o vapor.[3]

As falas hiper-realistas[4] do presidente Jair Bolsonaro em relação a saúde e a economia neste mundo fazem algum sentido: “nossa vida tem que continuar” “e os empregos precisam “ser mantidos”. “O sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar à normalidade”.[5]

A economia capitalista não podia ficar parada por tanto tempo por causa de um vírus. As bolsas e os investimentos ‘estavam em estado de agonia’, isso sim era preocupante! E os empregos tão defendidos pelo presidente? Que empregos?[6] A expressão usada pelo anarquista David Graeber parece boa “empregos de merda”.[7]  Só se for!

Mas é aí que está a história e o ponto que queria chegar. O isolamento já há muito tempo era uma irrealidade, uma espécie de luxo do qual muitas poucas pessoas podiam gozar.

Foi uma surpresa as engrenagens pararem, isso era inimaginável! Elas pararam, mas elas tinham que voltar e a defesa de um ‘novo normal’ era urgente!!

Isso tudo por um motivo: vivemos em um sistema social em que a sua lógica, a mais estapafúrdia possível, é transformar dinheiro em mais dinheiro, essa é a lógica que movimenta nossas vidas. E para que isso não se interrompa, as vidas humanas em nada importam. Em verdade, quando entra em jogo a estabilidade dessa lógica social perversa, somos seres sacrificiais, somos todos sujeitos econômicos sem nenhum valor.

(…) a reprodução-fetiche da vida humana, cujo núcleo consiste na simples transformação de 100 dólares em 110, deve abrir imensamente a boca para tudo devorar. Sangue para o deus do sangue: eis, daqui em diante, a mensagem da economia sacrificial. A crise apenas começou e, nela, o caráter autofágico da sociedade capitalista ficará cada vez mais evidente.[8]

A pergunta é: o choque que nos causa os banhistas é o mesmo que nos causa aqueles que se abarrotam em dia de semana nos transportes públicos sem qualquer ventilação?

Ele talvez não ocorra, pois já tenhamos inconscientemente aceitado a ideia de que temos que nos sacrificar perante o Deus Trabalho, perante o Deus Capital e que a vida continue assim…. uma lástima!

Inconscientemente, talvez, as pessoas já perceberam tudo isso, e como o ‘universo político se encontra fechado’, inexiste perspectivas de salvação, então como nos filmes, o último desejo do condenado, seja uma comida saborosa, um último estado de riso bobo e controverso, e  no nosso caso as praias e o ‘lazer’ que dela se espera.

No entanto, o único grito que é possível se escutar dessas manifestações é: “Viva a morte!”.

Mas o que se espera de uma sociedade como essa em que o cadáver já fede? O resultado lógico é a decomposição dos próprios ‘sujeitos’.

Este talvez seja o recado das imagens que vimos noticiadas nos telejornais e noticiários: “Vivamos a morte alegremente, pois não há mais qualquer resquício de vida possível nesta sociabilidade”.

Se existe possibilidade do sacrifício para o Deus morto, por que não celebrar com o risco da morte iminente essa não-vida fétida na qual muitos já são expostos diariamente a terem que surfar as ondas da cidade para chegarem em seu Tripalium?[9]

Notas:

[1] Comecei a escrever esse texto na segunda-feira, hoje no Brasil, alcançamos o total de 128.119 mortes pelo COVID-19. Disponível neste link, acesso: 09/09/2020, às 19h02.

[2] Disponível neste link.

[3] Disponível neste link.

[4] Disponível neste link.

[5] Disponível neste link.

[6] Desemprego no Brasil, ano de 2019: https://www.brasildefato.com.br/2019/05/16/quase-40-dos-desempregados-esta-ha-mais-de-um-ano-sem-trabalho-aponta-ibge; https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/09/27/desemprego-fica-em-118percent-em-agosto-diz-ibge.ghtml; https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/11/19/48-milhoes-de-desempregados-buscam-trabalho-ha-pelo-menos-1-anos.ghtml. Em relação aos dados apresentados, os desatentos podem apontar para uma melhora, no entanto, grifa-se que “a geração de postos em 2019 tem sido puxada pela informalidade”. https://outraspalavras.net/trabalhoeprecariado/a-estranha-sociedade-dos-empregos-de-merda/

[7] https://outraspalavras.net/trabalhoeprecariado/a-estranha-sociedade-dos-empregos-de-merda/

[8] JAPPE, Anselm et al.; Capitalismo em quarentena: notas sobre a crise global. Tradução de João Gaspar et al… São Paulo: Elefante, 2020, p. 67.

[9] Etimologicamente a palavra trabalho deriva da palavra Tripalium que significa um instrumento de tortura. Trabalhar significa ser torturado no tripalium.

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