Tabata Amaral e um desafio para o PDT

Frente à tormenta que se criou em torno da relação entre Tabata Amaral e o PDT, vem a necessidade de uma análise clínica de como se formou o cenário em que nos encontramos e como esta experiência pode servir de guia para decisões sobre o futuro.

Mas não falo aqui de decisões a respeito das tarefas que temos de cumprir, como travar a disputa da narrativa ou proceder com trâmites institucionais dentro do partido. Mais importante que tratar disso é avaliar de forma crítica nossas condutas, calculando os avanços e prejuízos para definir uma base sólida que fundamente as estratégias que vão guiar as próximas investidas do nosso campo popular.

O episódio relacionado à Reforma da previdência envolvendo a Deputada traz a necessidade de revisar o método pelo qual o partido pretende construir quadros políticos tanto orgânicos quanto eleitoralmente competitivos, e aptos a liderar as mobilizações em torno de nossas defesas. Afinal é sabido que nosso campo não pode se sustentar em uma única liderança nacional.

Para tratar dessa questão, eu proponho a avaliação de duas estratégias hipotéticas que poderiam ser empregadas pela instituição que pretende reforçar suas fileiras com lideranças relevantes.

1.       Buscar na sociedade quadros que tenham alguma trajetória relevante, ou um carisma especial. Que seja um quadro formado em técnicas de fala pública, postura pessoal e comunicação nas redes sociais, ou seja, detentor de grandes capacidades desejáveis a um candidato.

Investir então neste quadro numa tentativa de convencê-lo do ideário que o partido defende para, quando lograr sucesso, obter ali um quadro político completo e capaz de representar e expandir nosso campo político.

2.       Buscar na sociedade quadros orgânicos ao ideário que o partido defende, que se aproximam do partido por afinidade com as ideias do nosso campo político.

Investir então para formar estas pessoas nas capacidades técnicas na área da comunicação, oratória, postura e outros atributos desejáveis. Ofereceu a ele a possibilidade de percorrer uma trajetória junto ao partido, uma que ele possa apresentar ao eleitor e às bases de sua liderança.

A segunda estratégia se demonstra a mais trabalhosa e exige mais tempo, se tornando quase inviável quando o retorno rápido é imprescindível. Porém, ela tem potencial para formar quadros indubitavelmente orgânicos, e tão competitivos quanto a máquina do partido estiver disposta a investir nele.

Quando examinamos a figura da Tabata Amaral, certas observações são inevitáveis. Trata-se de uma pessoa bem formada, de discurso lúcido e fácil, de fala precisa e bem elaborada. Estas capacidades pessoais não foram adquiridas de forma inata, por muito tempo ela foi exposta a atividades como ministrar palestras, dar entrevistas e escrever colunas jornalísticas, entre outras atribuições na área da comunicação. No entanto não para aqui, já que ela também conta com uma vasta rede de contatos, sendo muitos deles do campo da comunicação, e também tem em torno de si uma pequena máquina de comunicação que logra resultados invejáveis.

O problema com a Deputada é que estas capacidades e estruturas não foram adquiridas por ela numa relação com nosso campo político. Quando o PDT a recebeu, ela veio pronta. Ela recebeu apoio para elaboração de seu perfil de outra fonte, à qual se mostra hoje fidelizada.

É seguro afirmar que a visão de Jorge Paulo Lemann, na figura de sua fundação, preferiu se fundamentar em algo como nossa estratégia 2 dentro de seu plano confesso de “fabricar” o futuro Presidente do Brasil. Ele trabalhou desta forma com Tabata, e provavelmente também com outros quadros que poderiam estar por vir.

O PDT, por sua vez, adquiriu seu principal quadro eleitoral Paulista já capacitado, atraindo para o partido uma figura de posicionamento político divergente, na esperança de convence-la de um ideário estranho à sua ideologia pré-constituída, ou seja, se apoiando em nossa estratégia 1.

Eu devo aqui fazer uma defesa indispensável das decisões tomadas pelo partido, principalmente quando consideramos o cenário que se apresentava. Encarregado de organizar o diretório estadual de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, para a campanha presidencial de um nome como o de Ciro Gomes, era preciso uma estratégia que entregasse resultados o mais rápido possível. O partido, inclusive, está de parabéns pelas notáveis realizações que foi capaz de produzir no diretório estado com parcos recursos financeiros e tão pouco tempo, inclusive no que diz respeito à sua relação com Tabata Amaral. Da forma como a história de apresentou, “convencê-la” de nossas defesas teria sido lucro até inesperado. Porém esta possibilidade está morta, e nós precisamos lidar com a importante questão:

Para o futuro, deveria o PDT buscar na sociedade quadros capacitados, mas de posições políticas incompatíveis, ou se concentrar em capacitar quadros orgânicos para eleições e outras mobilizações?

Para chegar a uma resposta, é preciso ter em mente que vivemos em tempos de disputa do próprio significado de “esquerda”, e se não estivermos coesos em nossas posições jamais seremos capazes de solidificar nossa proposta na opinião popular. Mas não é suficiente se apoiar num purismo ideológico. De pouco adianta termos as pessoas certas se não nos estruturarmos para oferecer a eles as capacitações que são indispensáveis a qualquer um que pretende conquistar o público.

Movimentos como o Acredito, RAPS, Agoga! E RenovaBR, e hipócritas como Jorge Paulo Lemann e Eduardo Mufarej, compreenderam a importância da trajetória e da comunicação para composição do perfil do político, e vêm ganhando terreno na disputa. Nosso campo precisa de estruturas igualmente técnicas, organizadas e eficientes para enfrentar os adversários que pretendem disputar conosco a liderança da esquerda.

A proposta é que sejamos radicalmente defensores de nossa visão política, desenvolvimentistas de esquerda cientes da importância da questão nacional. Vamos definir em bases sólidas o compêndio de nosso ideário e nos filiar a ele.

Recepcionar quadros políticos coesos, nos estruturando e construindo as mecânicas para capacitar pessoas tanto para a atividade política quanto para a comunicação popular. Desta forma não seremos reféns da construção de terceiros que, inevitavelmente, terão sempre seus próprios interesses enfraquecendo nossas defesas históricas, das quais não podemos prescindir.

Por Danilo Greb Santos

2 Comentários

  • Esta situação da Tabata Amaral se fosse na época do falecido Leonel de Moura Brizola já teria um desfeche para o partido e para os filiados que fazem parte do PDT. Essa garota utilizou de caso pensado, diferente de outros filiados que foram expulsos da legenda por serem desleais. Da parlamentar em questão já está mais do que provado a desonestidade dela em relação ao voto a favor do governo, indo contra a orientação do PDT contra a reforma proposta pelo governo. A deputada é uma direitista enrustida, que, inclusive usa constantemente a sua coluna no jornal a Folha de São Paulo, com o respaldo do dono.

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  • Tabata é uma perigo para a Esquerda. Quando um site de Esquerda entra em defesa de uma legisladora que vota contra os trabalhadores e contra um partido que quer retomar seu caminho progressistas, mostra que a Esquerda não entendeu ainda quem é e como foi formada esse quadro.

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