Temer no Roda Viva: estancando a sangria

Michel Temer é um homem do passado. Sua fala sempre soa como se tivesse sido anteriormente escrita, ensaiada. É um homem efusivamente litúrgico.
Depois de duas prisões e do escárnio publico, este homem litúrgico apresentou-se ao Roda Viva nesta segunda feira (16) para defender-se. Michel Temer passou as quase duas horas de programa defendendo seu governo e seu passado, mesmo tendo contado com uma visível simpatia da bancada de entrevistadores.

O ex-presidente deu uma entrevista histórica dentro de seus padrões cerimoniais e discretos. Ficamos sabendo de diálogos inéditos durante o período do impeachment; da crença de Temer na continuidade de Dilma caso Lula fosse para Casa Civil; assistimos o ex-vice presidente, beneficiário do processo, chama-lo de golpe algumas vezes, entre outros momentos até então inéditos para o grande publico brasileiro.

Temer em geral não fugiu das perguntas como de costume, e sempre que o fez, encaminhou as esquivadas para seu jurídiques implacável. Citou teorias ultrapassadas e todo o brocardo conservador das faculdades de direito de São Paulo. Muitas das respostas evasivas foram dadas quando questionado sobre o atual presidente, Jair Bolsonaro. Parecia ter uma certa gratidão com o atual presidente, tendo passado o programa inteiro sem deferir-lhe críticas.

Durante o assunto mais esperado da noite, sua defesa nos processos em que é acusado de corrupção, Temer mostrou-se verdadeiramente magoado e partiu para o ataque. Falou que atualmente o MP não possui o hábito de seguir as leis, dizendo diversas vezes que o órgão tem uma “sanha punitiva”. Acusou a polícia federal de espetacularizar sua prisão. Apontou contradições dentro do processo, defendendo que em nenhuma hipótese haveria justificativa para sua detenção. Como exemplo da espetacularização, citou um episódio curioso, em que o delegado responsável por sua prisão teria aberto a porta do carro da polícia para deixa-lo ser fotografado pela imprensa, como um troféu.

Os ataques aos seus inquisidores não parou por ai. Temer disse, referindo-se ao episodio das divulgações do áudio entre Lula e Dilma pelo então juiz Sergio Moro: “Pro paladar de quem preza a ordem jurídica, não poderia ser divulgado“. Atacou a força tarefa do MPF, dizendo que ela envolvera sua filha, “para quebrar-me psicologicamente”. Disse também que os procuradores “só tinham coragem de assinar as denúncias em conjunto”, e que a força tarefa tinha “complexo de Watergate”, citando o escândalo americano responsável por derrubar o governo Nixon.

Nos assuntos políticos, voltou a utilizar o tom conciliador que todos conhecemos. Disse que “atuou contra o impeachment”, defendeu-se até o ultimo minuto da pecha de conspirador (mesmo cometendo o ato falho de chamar o processo de golpe), elogiou todos os governos possíveis, disse que estava empenhado em ajudar Dilma, além de outra dúzia de mentiras boas de se ouvir. Sempre cordial, com pinta de estadista.

De resto? O ex-presidente defendeu seu governo, suas medidas indefensáveis (como o teto de gastos e a reforma trabalhista) e disse que queria ficar para a história como reformador. Durante sua defesa, ao final do programa, disse a frase que marcaria seu governo, “nós tentamos estancar a sangria”.

Michel Temer é aquele episódio obscuro e menos relevante que leremos no livro de histórias. Apesar de ser extremamente hábil e inteligente, fica visível que falta-lhe aquilo que desejamos para um governante: ser eleito.

E isso a história contará.

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