As tensões entre Estados Unidos e China – Parte II

A evolução das disputas EUA-China

*Esse artigo é o segundo de uma série de textos desenvolvidos a partir da coletiva de imprensa com o Cônsul-Geral da China no Rio de Janeiro, Li Yang*

Ilustração: Tainan Rocha

Antes de seguirmos, devo explicar que o objetivo das próximas linhas é apenas realizar um breve histórico da abordagem dos Estados Unidos em relação à China, para uma melhor compreensão do cenário atual. Não entrarei em minúcias.

Quando escrevi em outro artigo sobre a nova cara do “perigo amarelo”, mencionei como líderes de algumas nações ocidentais apresentam um longo histórico de conflitos contra a China. Nos Estados Unidos, por exemplo, como parte do discurso xenófobo contra a população chinesa e asiática como um todo, já vigeram leis como o Ato de Exclusão de Chineses de 1882, que previa restrições à imigração e naturalização, e a Lei de Imigração, também conhecida como Ato de Exclusão de Asiáticos, que vigorou até 1965. No decorrer do século XX, a 2ª Guerra Mundial, a Guerra do Vietnam e o medo do espectro comunista fizeram com que o discurso do “perigo amarelo” também fosse aplicado a japoneses, coreanos e vietnamitas.

Olhando para um passado mais recente, é possível observar a adoção de uma nova abordagem dos Estados Unidos em relação à China a partir da década de 1970, enquanto aquele estava sob o comando de Richard Nixon e a economia mundial era abalada pelas crises do petróleo. Ao reajustar sua política externa, Washington passou a considerar que integrar a China à comunidade internacional seria melhor do que mantê-la acuada e belicosa (ainda mais num cenário de confronto com a URSS). Mas como a (geo)política é ambígua e complexo, os Estados Unidos acabaram se aproximando de outras potências asiáticas e Taiwan.

É importante ressaltar que, especialmente a partir de 1976, com a sua política de reforma e abertura, a economia chinesa deslanchou. Enquanto muitos países desenvolvidos apostavam cada vez mais em políticas de austeridade fiscal, o estado chinês investia diretamente em infraestrutura, educação, pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico.

Como fruto de suas escolhas, na década de 1990, o crescimento econômico da China já chamava atenção. De olho em Pequim, em 1995, o Pentágono lançou a “Estratégia Ásia-Pacífico”. Dessa forma, os EUA mantiveram cerca de 100 mil militares na Ásia, enquanto reduziam a sua presença no resto do mundo. Já durante a primeira década do século XXI, Bush aceitou a Índia como potência nuclear para contrapesar a China, por exemplo.

Sob o governo Obama foram firmados acordos militares com Japão, Vietnã e Austrália. Houve também, o Acordo de Associação Transpacífico (TPP), cujo objetivo velado era limitar a influência chinesa na Ásia e a dominação dos seus produtos no mercado global.

E se por um lado Donald Trump abandonou o Acordo de Associação Transpacífico assim que ocupou a Casa Branca em 2017, do outro, passou a flertar abertamente com a possibilidade de entrar em conflitos mais diretos contra o gigante asiático.  Agora em 2020, disputando as eleições presidenciais em um contexto de crise sanitária e econômica, Trump tem reforçado seu discurso xenófobo chamando o coronavírus de “vírus chinês” a cada oportunidade que tem.

Além disso, a Casa Branca sabe que Pequim detém uma posição de vanguarda tecnológica. Não atoa, também são frequentes os ataques à Huawei, pela tecnologia 5G, e ao Tik Tok, app da chinesa ByteDance, startup mais valiosa do mundo e que assusta pela ousadia de não ter sido criada no Vale do Silício.

Sobre o 5G, o Cônsul-geral Li Yang chegou a dizer em sua coletiva que “ao perder o timing e a liderança no setor de tecnologia, os EUA não reagiram de forma amigável“. Agora, ao tentar correr atrás do prejuízo, “estão agindo como bandidos e isso fica claro aos olhos da população mundial“.

Tão claro e cristalino, que não é preciso um esforço muito grande para saber que se em 2016 a vitória tivesse sido de Hilary, o conflito entre os dois países também estariam nos noticiários. Em termos bélicos e no plano simbólico os discursos talvez fossem diferentes, mas o objetivo dos Estados Unidos, enquanto potência hegemônica seria o mesmo: dificultar e impedir a ascensão chinesa.

Ao ser questionado sobre o que seria melhor para a China, Joe Biden ou Donald Trump, Li Yang respondeu serenamente: “não temos interesse e nem criamos expectativas em relação às eleições americanas“. É claro que faz parte do métier político e diplomático não demonstrar preferência por candidatos de outros países (alguém precisa avisar isso a Bolsonaro). Mas nesse caso, o Governo chinês sabe  que a agressividade norte-americana independe de o Presidente ser democrata ou republicano. A tensão entre as potências está bem longe do fim.

No próximo texto (Parte III), abordaremos a postura de Trump, que muda o consenso desenvolvido décadas antes por Nixon. Atualmente, os EUA consideram a política externa chinesa uma ameaça para si e para a ordem internacional estabelecida no pós II Guerra. Assim, tentam passar ao mundo a ideia de uma China perigosa. Mas como já mencionamos anteriormente, o perigo parte de Washington, e não de Pequim.

As considerações sobre o futuro das relações Brasil-China você encontra aqui.

Parte I – Introdução

Parte III – Sobre uma suposta nova Guerra Fria

Parte IV – Sobre as vitórias da China na batalha tecnológica

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