As tensões entre Estados Unidos e China – Parte IV

*Esse artigo é o segundo de uma série de textos desenvolvidos a partir da coletiva de imprensa com o Cônsul-Geral da China no Rio de Janeiro, Li Yang*

Ilustração: Tainan Rocha

 

Avanços tecnológicos: a alavancada chinesa 

Hoje a China colhe os frutos das escolhas políticas e econômicas que tomou nas últimas décadas. O cônsul-geral Li Yang fez questão de enfatizar durante a coletiva os segredos da China: a forte liderança do Partido Comunista Chinês e o seu objetivo máximo de servir ao povo, que desde a sua fundação, em 1921, nunca foi alterado. Tanto é assim, que mencionei na parte III sobre a altíssima aprovação de Xi Jinping e do PCCh pela população, que é superior a 90%.

Ao final de 2019, o resultado do PISA, que avalia a qualidade da educação básica no mundo revelou que a China liderava as três áreas de conhecimento testadas (leitura, matemática e ciências). Vale lembrar que os demais países que ocupavam os primeiros lugares na avaliação feita pela OCDE eram asiáticos (quando não, partes da China consideradas a parte, como Macau e Hong Kong)[1].

Além disso, já faz alguns anos que a China lidera o ranking de pedidos de registro patentes no mundo. O mesmo acontece com o pedido de registro de desenho industrial. E ao contrário dos Estados Unidos, que ainda se mantém em posições favoráveis no ranking, mas apresenta queda nos pedidos de registro, o gigante asiático se supera a cada ano que passa.

Em termos concretos, podemos mencionar o fato de que há anos a China domina a produção de painéis fotovoltaicos, o que prejudicou a indústria “verde” de países como os EUA, Alemanha e Dinamarca[2]. Não foi um acaso que a primeira medida de Trump na guerra comercial tenha sido a criação de tarifas unilaterais sobre importação de painéis solares.

No que diz respeito à “corrida espacial”, a China também surpreende. No início de 2019,  a CNSA (China National Space Administration, ou Administração Espacial Nacional da China) realizou pela primeira vez na história, um pouso bem sucedido no lado oculto da lua. Por décadas a chegada do homem ao “dark side of the moon” foi imageticamente ocidentalizada por meio de músicas e filmes. De repente, o solo lunar está sendo redescoberto por um robô chinês, enviado ao espaço por uma nave também chinesa.

O programa espacial chinês é ambicioso. Na parte I, mencionei também o  recente lançamento do foguete “Long March 5 Y4” enviado para explorar marte.  Agora, o próximo passo é a construção de uma estação de energia solar na órbita da Terra[3], que será feita em Chongqing.  Sim, a cidade que possui um centro industrial importante e cuja base diplomática norte-americana mais próxima foi fechada por Pequim na manhã do dia 24 de julho, como resposta ao fechamento do consulado chinês em Houston.

Bom, é verdade que o volume de investimentos do governo norte-americano para programas espaciais ainda seja superior ao da China. Porém, também é preciso ressaltar que os Estados Unidos tem dado maior enfoque nos programas realizados em parceria com empresas privadas. As pesquisas elaboradas pela SpaceX, por exemplo, foram financiadas pela DARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa), com dinheiro público. Mariana Mazzucato já apontou os problemas desse tipo de escolha, já que o retorno econômico – especialmente no que diz respeito à arrecadação tributária – para o Estado diante dos riscos assumidos não são compensatórios. Além disso, agora os EUA “precisam” se preocupar com a sua grande antagonista do século XXI dando passos largos em seu programa espacial.

Quanto ao 5G desenvolvido pela Huawei, o sucesso chinês é ainda mais evidente. Mais do que uma internet rápida e estável, o 5G é a nova fronteira da revolução tecnológica e nenhum outro país foi capaz de desenvolver tecnologia semelhante. Esse cenário assusta países como Estados Unidos e Inglaterra, que tem adotado uma postura abertamente mais agressiva.

No que diz respeito aos EUA, essa reação,  típica de quem não está acostumado a perder e sabe que seu futuro depende das próximas jogadas, não deram outra alternativa à China que não elevar de volta o tom de voz. Utilizando seu corpo diplomático, recados de Pequim foram dados, inclusive, em solo tupiniquim (recordemos do episódio envolvendo Todd Chapman, embaixador dos EUA no Brasil e Yang Wanming, embaixador da China no Brasil).

Durante a coletiva de imprensa do dia 23/07, o cônsul Li Yang chegou a afirmar que os ataques recentes tem sido feitos porque os EUA “perderam o timing e a Huawei desenvolveu tecnologia de ponta. Ao perder a liderança no setor de tecnologia os Estados Unidos não reagiram de forma amigável. Ao correr atrás dessa perda, estão agindo como bandidos. Isso fica claro aos olhos da população mundial”.

O país asiático, ao contrário dos Estados Unidos, não pede contrapartidas militares pelas vantagens que sua tecnologia disruptiva oferece. Além disso, em sua implantação a Huawei assina acordos onde estão abertas todas as cláusulas de segurança. Não a toa, inúmeros países já adotaram o 5G chinês.

Nesse sentido, Li disse ainda que “como a tecnologia da Huawei é a mais segura, isso causa medo nos norte americanos”. Isso acontece porque, segundo o cônsul, “se todos adotarem a Huawei, os Estados Unidos perdem a prerrogativa de espionar o mundo todo, coisa que fazem há anos”.

O WikiLeaks já indicou anos atrás que a declaração de Li Yang é real e possui evidências materiais, muito diferente das declarações levianas de Todd Chapman. Diversos países foram vítimas de espionagem por parte do governo norte-americano. Casos de vigilância ilegal foram revelados até mesmo contra a ex-Presidente Dilma Rousseff.

E por mais irônico que possa parecer, Donald Trump tenta utilizar o discurso da espionagem a seu próprio favor. Sem reconhecer o escândalo envolvendo a NSA e valendo-se tanto do preconceito secularmente forjado contra populações asiáticas como também reforçando o medo do espectro comunista, os Estados Unidos agora atacam o app TikTok, da chinesa ByteDance.

Ao fim e ao cabo, as campanhas internacionais contra o 5G e as perseguições implacáveis contra a Huawey, ZTE e ByteDance promovidas pela Casa Branca revelam o seu reconhecimento sobre os avanços tecnológicos da China. As também recentes disputas de narrativa envolvendo Hong Kong e Xinjiang indicam que Washington não vai deixar a ascensão chinesa acontecer em paz. A ver como as disputas seguirão após as eleições de 2020.

 

[1] Disponível em: <https://epoca.globo.com/sociedade/por-que-china-lidera-ranking-de-educacao-basica-no-mundo-24115100>. Acesso em 19 de mar de 2020.

[2] MAZZUCATO, Mariana. O Estado empreendedor: desmistificando o mito do setor público vs. o setor privado. São Paulo: Portfólio-Penguin, 2014.

[3] https://canaltech.com.br/espaco/planos-ambiciosos-da-china-incluem-a-criacao-de-uma-usina-energetica-no-espaco-133039/

1 Comentário

  • Tudo verdade. A China possui apenas 4 ou 5 bases militares em áreas próximas ao seu território, enquanto os EUA possuem cerca de 800 bases militares espalhadas pelo mundo. Isso diz muito da natureza distinta dessas potências. E, por fim, não esquecer que tudo isso só foi possível porque na China se fez uma revolução (1949) nacional e não apenas socialista socialista que reestruturou as instituições desse país.

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