The Intercept é o principal acontecimento político de 2019

De nada adianta torcer contra ou a favor da lavajato. De nada adianta também torcer os fatos como se torce um pano de chão sujo após sua lavagem para transmutar mentiras em supostas verdades.

Dentro das próprias contradições do sistema capitalista, o componente inédito da crise das democracias ocidentais é a parafernália das tecnologias do novo ambiente comunicacional. Jogando rápida luz retrospectiva mais próxima, constata-se que em 1929 e no contexto das duas grandes guerras do século XX esse componente não existia, embora os três eventos fossem já o próprio movimento das crises inerentes e inevitáveis do sistema.

Hoje vivemos novas crises, sendo que, de acordo com a interpretação de alguns, a de 2008 começou e ainda não terminou, sendo diferente da de 1929, como são diferentes todas as crises do Capital. Dentro de um contexto de maior interpendência entre os países para o bem e para o mal, as revelações que estão sendo feitas pelo The Intercept Brasil são o principal acontecimento político do ano até o momento, completando-se agora seis meses da posse de Jair Bolsonaro.

De nada vai adiantar também ficarmos presos em nossas crenças ou deboches tanto para um lado como para o outro. Sempre precisamos tomar posição, mas, em momentos agudos de crise, a urgência de definições chega a ser dramática, daí toda prudência sendo bem vinda tanto para os implicados no escândalo como para suas vítimas – como também, claro, para as autoridades que terão que tomar as necessárias providências –, além da grande plateia expectante.

Prudência para se evitar, antes de mais nada, golpismos de qualquer espécie, por exemplo, para que o acusado principal, na posse atual dos recursos estratégicos de poder, não queira, de forma tresloucada, perseguir e prender jornalistas ou qualquer outro ator de diferentes arenas que lida com informação e opinião. Além disso, para se evitar também diagnósticos apressados e a apresentação de fórmulas improvisadas. Também de nada vai adiantar esperar soluções da tradicional combinação brasileira entre o arcaico e o novo na esperança de apaziguar ânimos. Os golpistas foram longe demais.

De nada vão adiantar ainda a histeria ou a vedação do sol com a peneira, já que o The Intercept não vai silenciar – e a rebordosa pode ser pior e mais dramática ainda caso

haja paroxismo de gestos e atos por parte de quem está de posse dos instrumentos policiais. Parodiando uma senadora que chegou a cunhar a expressão “extrema-imprensa” (bizarrice sacada não se sabe de onde), que, segundo ela, seria responsável pela péssima imagem de Bolsonaro no Exterior, há que se evitar o “extremo-revanchismo” diante da lavagem do que precisava ser lavado.

Já está mais do que evidente que Jair Bolsonaro tem que demitir Sérgio Moro ou este pedir exoneração. Eleitor e cidadão não são palhaços. Se Bolsonaro tiver um pingo de inteligência e senso de sobrevivência, não vai esperar muito. E de repente não será algo tão difícil assim, considerando que traições e casuísmos são instrumentos pragmáticos costumeiros da política brasileira – a exemplo de um deputado utilizado para dar o golpe em Dilma Rousseff e depois ser preso, estando encarcerado até hoje. Se não for demitido, Moro vai ficar sangrando a cada revelação nova dos elucidativos “interceptadores”.

Uma das ironias com ares de sarcasmo dessa nova realidade do ambiente comunicacional é involuntária, espécie de enunciado sem autoria, qual seja: a ingenuidade de autoridades públicas imaginarem que não são monitoradas, como agentes intocáveis – diferentemente do cidadão comum, alvo cotidiano de ataques cibernéticos comerciais de todos os tipos.

É como se os cidadãos tivessem que se submeter, involuntariamente, à moralidade da transparência pública (e mesmo privada) e certas autoridades defenderem a tal transparência como mantra ético somente da boca para fora. Em outras palavras, é como se a sociedade tivesse que ficar submetida (e vulnerável) à chamada transparência, enquanto os governantes e políticos pudessem ficar seguros em caixas pretas não só dos aparelhos de estado, mas também das sombras escuras dos próprios procedimentos institucionais que deveriam ser públicos.

A propósito disso tudo, para encerrar, enquanto aguardamos novas bombas, menciono aqui um livro aparentemente instigante que comecei a ler: “Instruções para um futuro imaterial” (Editora Elefante), de Stefano Quintarelli, ativista italiano com experiência no campo da computação e da internet. O autor foi deputado da República italiana de 2013 a 2018, tendo participado dos debates sobre a Carta de Direitos para a Internet e apresentado projeto de lei sobre regulação e tecnologia, propondo neutralidade de rede.

Dentre outras coisas, uma das mais centrais do livro diz respeito à tese de que não existem dois mundos, um material e outro virtual. As coisas estão interpenetradas. No prefácio à edição brasileira, os professores da Universidade de São Paulo Ricardo Abramovay e Rafael Zanatta encerram o texto com uma velha lição de Spinoza: nem rir, nem chorar, nem detestar, mas compreender.

18 Comentários

Deixe uma resposta