ELIAS JABBOUR: De Tiananmen a Caracas (a ladainha da democracia como valor universal)

Vem de muito tempo o histórico de intervenções de todo tipo do imperialismo pelo mundo. Desde intervenções armadas abertas até pequenos boicotes econômicos. A supremacia do dólar e a planificação da ação do Federal Reserve pelo mundo amplia sobremaneira o raio de ação dos EUA nos quatro cantos do planeta, sobretudo a partir da década de 1990. Esse raio de ação eleva-se com o domínio pleno, por parte dos EUA, das chamadas TI`s (tecnologias da informação)o que coloca o país em situação privilegiada ante seus principais concorrentes, ampliando o monopólio sobre a formação de subjetividades pelo mundo. Steve Bannon é o nome da vez. Mas podemos falar do “humanista” Bill Gates, de Mark Zuckerberg e Steve Jobs. Todos formados com investimentos de bilhões de dólares do planificado Estado norteamericano.

O uso político disso tudo é evidente. As “revoluções laranjas” iniciadas na Ucrânia até a “Primavera Árabe” e a intervenção militar na Líbia e na Síria e o golpe de 2016 no Brasil são exemplos de onde pode chegar a capacidade de intervenção do imperialismo pelo mundo. O contrapeso vem da Federação Russa, da China Socialista e da República Islâmica do Irã. Em todos os casos geridos por forças políticas de clarividência, com olho além do horizonte.

Falando em China é bom observar que a primeira tentativa aberta deste tipo de intervenção ocorreu nos estertores do fim do “mundo socialista”. Um movimento contrarrevolucionário iniciado em maio de 1989 na Praça Tiananmen terminou em um verdadeiro banho de sangue no início de junho do mesmo ano com a vitória do Partido Comunista da China (sob a liderança de um herói da Longa Marcha, Deng Xiaoping) sobre o movimento. Muitos anos depois veio à tona o papel da intervenção dos EUA no processo. O maço de documentos chamado Tiananmen Papers está à disposição a quem quiser ter acesso. E lá não existe margem para dúvidas, longe de teorias da conspiração. O recurso final lançado pelos comunistas chineses foi a violência aberta contra os manifestantes, sendo os últimos impelidos a não negociar nada com o governo e inflados, também, por imensas contradições do primeiro ciclo expansivo das reformas econômicas iniciadas em 1978.

O expediente é o mesmo em todos os casos acima colocados. O caso da Venezuela tem um componente econômico interessante: uma grave crise cambial asfixia a economia, abalando a capacidade de importar alimentos. Coincidentemente o preço do barril de petróleo caiu cerca de 300% em dois anos. Numa jogada empenhada entre os EUA e a Arábia Saudita combinou-se uma elevação da oferta do petróleo, fazendo o preço despencar e levando sérios problemas a países como a Rússia, o Irã, o Brasil e a Venezuela.

A crise humanitária criada pelo estrangulamento externo vem à seguir juntamente com a formação de blocos de oposição de centro-direita que logo se transformam em forças fascistas prontas à violência contra o poder popular. De forma semelhante a ingênua esquerda brasileira lembra do ocorrido entre os meses de junho e julho de 2013 como uma “jornada” e não como o capítulo 1 do fim dos governos populares moderados em nosso país.

A crise venezuelana pode ser retratada como uma violência reação do, nas palavras de Ignácio Rangel, “polo externo” (imperialismo) contra uma mudança radical de rumos no país que detém as maiores reservas de petróleo do mundo. A diferença com o Brasil é clara: por lá o poder é exercido de fato por forças patrióticas, socialistas e antiimperialistas que varreram as forças armadas e o judiciário de elementos ligados ao imperialismo. Abrindo parêntese, enquanto aqui as esquerdas – altamente influenciadas por noções de “democracia” e suas “institucionalidades” trazidas para cá por intelectuais com mestrado, doutorado e pós-doutorado na área de humanas nas melhores universidades europeias e norte-americanas – não reconhecem a centralidade da luta por soberania nacional, centralidade esta como único meio para transformar a soberania nacional em desenvolvimento econômico acelerado e soberania social do povo. Aqui a bandeira do Brasil está com a direita mais corrupta e entreguista do mundo. Enquanto as esquerdas namoram com a possibilidade de uma Internacional Progressista gestada por Bernie Sanders e seus seguidores que exclui a China e é abertamente contra a Rússia e seus aliados, como a Síria.

A democracia não é um valor universal. O único valor universal é o direito à vida e o direito à vida, em um mundo marcado pela concorrência de blocos de capitais entre diversos países, passa necessariamente pela garantia à soberania nacional de todos os países do mundo e a não ingerência de seus assuntos internos. A crise humanitária venezuelana e as controvérsias em torno da legitimidade de Maduro tem não somente criado condições para a intervenção militar norte-americana quanto jogado as esquerdas (do circuito Elizabeth Arden) não revolucionárias e não patrióticas no mundo em plena confusão. A questão? A Venezuela não é mais uma democracia… O mesmo argumento que levou as “massas da classe média progressista” a fechar os olhos à intervenção estrangeira na Síria e chorar litros de lágrimas diante dos covardes atentados de Paris. E a China Socialista, país que retirou 800 milhões de pessoas da linha da pobreza em 40 anos é digna de desprezo em uma repetição clássica do argumento de Aristóteles sobre o “despotismo asiático” esquecendo-se que a “democracia grega” condenou Sócrates à morte e a “democracia norte-americana” apoiou até o fim o apartheid sul-africano e Obama ordenou bombardeios sobre velhos e crianças no Oriente Médio.

Nicolás Maduro tem meu respeito profundo. Ele não é Hugo Chávez, assim como Hugo Chávez nunca foi Fidel. A luta de classes na Venezuela esta tão esgarçada quanto na China em junho de 1989. Como na China de 1989 o dilema é lutar pelo poder ou entregar o poder. Lutar pelo poder significa, infelizmente ou não, o uso da força do Estado contra a direita, os fascistas e os entreguistas. Expulsar essa gente para Miami pode ser uma opção de meio termo. Seja qual for a decisão de Maduro e das Forças Armadas Bolivarianas, venho dizer que aos que sabem a que ponto o imperialismo pode chegar, não existem dúvidas. O futuro da democracia venezuelana depende de um poderoso Estado Bolivariano em pleno funcionamento e um país em condições de planificar sua economia, buscando o fim da monocultura do petróleo. Tarefa nada fácil. O primeiro passo é utilizar de todos os meios à disposição para derrotar a contrarrevolução. Como em Tiananmen em junho de 1989. Lá e cá, não haverá de ter vacilo.

Por Elias Jabbour

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