A tragédia do pedido de uma escola para não ser alvo de tiros

A foto de um cartaz afixado no telhado de uma escola na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, com os dizeres “Escola. Não atire. Projeto Uerê”, revela a que ponto chegou a tragédia brasileira com seus dois elementos marcantes: a destruição dos pilares mínimos de desenvolvimento e o ódio aos pobres incentivado pelas autoridades.

A tragédia do pedido de uma escola para não ser alvo de tiros - Cópia

O terrorismo de estado contra as camadas mais desfavorecidas se manifesta agora com ameaças vindas do céu, feitas por tripulação de helicópteros fortemente armada e sem pudor algum, ostentando a arrogância e a covardia como quem diz: em quatro meses, desde o início de 2019, mais de 400 pessoas já foram mortas. E daí, algum problema?

A morte dessas pessoas, procuradas ou não pela polícia, faz parte do sangramento do país nas diversas mortes do seu desmantelamento: tentativa de destruição da previdência pública, desemprego crescente, cortes nos gastos em saúde e nos investimentos em educação, desindustrialização, entrega dos recursos estratégicos aos estrangeiros, só para citar alguns dos principais problemas de ordem estrutural sobre a política deliberada de impedir o desenvolvimento do Brasil.

Quando era repórter nos anos 1980 e 1990 no Rio de Janeiro pude testemunhar o relacionamento de “confronto” entre polícia e traficantes de drogas. Essas operações espetaculares eram usadas pelas autoridades para nos tentar convencer de que vivíamos e estaríamos vivendo ainda hoje uma “guerra” urbana. Obviamente, uma grande cortina de fumaça para esconder as desigualdades sociais e econômicas.

Digo relacionamento de “confronto” porque havia, na verdade, certos ritos de conduta recíproca. Era inconcebível, por exemplo, policiais a bordo de helicóptero atirarem para baixo como algo rotineiro contra comunidades. Da mesma maneira eram raríssimos os casos de traficantes atirando para cima, pois eles sabiam das consequências repressivas advindas de tal ousadia.

Nos últimos anos não acompanhei mais notícias policiais. Certamente, seria necessário apurar casos de confrontos e tiroteios em que traficantes começaram também a atirar em helicópteros da polícia. Não tenho dados sobre isso. De qualquer forma, o que seja revela a tragédia estampada no pedido da escola da Maré. Se há uma guerra em curso, esta é contra os pobres, situação mais do que evidente e bem diferente da ilusão de muitos que enxergam uma guerra contra o tráfico de drogas e o crime de uma maneira geral. Estranha guerra em que grande quantidade de armas pesadas chega às comunidades, obviamente, não porque bandidos de chinelo e bermuda vão lá fora apanhá-las.

Uma grande sordidez que fizeram, à época, com o então governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola e com a opinião pública honesta e de bem foi espalhar a ideia de que ele era conivente com os traficantes porque proibira que a polícia ficasse dando um pé na porta para invadir as casas dos moradores nas favelas.

Irônica e inevitável lembrança agora em relação ao nome de Leonel Brizola que tinha como um dos pilares de projeto de sociedade a educação com sua conhecida política de manter por tempo integral os jovens nos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps). Programa esse que tinha à frente um dos grandes heróis nacionais, Darcy Ribeiro, nome que dispensa comentários e que não demora muito para ser alvo de boçalidades como foi Paulo Freire.

Enquanto os iludidos continuarem a acreditar que vivemos uma guerra nas ruas e outra nas instituições políticas contra o crime e a corrupção, como se esses fossem os principais problemas do país, não conseguirão entender por que virou algo normal os governos se gabarem de construir presídios, e não escolas – e por que o Brasil hoje é a terceira população carcerária do mundo, atrás somente do Estados Unidos e da China. Não conseguirão compreender também por que o tal combate espetaculoso contra o crime e a corrupção não tem conseguido contribuir para o desenvolvimento do Brasil.

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