ELIAS JABBOUR: “Três Marx” e a China

Para mim o debate sobre a natureza socialista, ou não, da experiência chinesa tem ampla fundamentação. Este debate implica o confronto de três visões opostas sobre o legado intelectual de Marx e o socialismo, a saber: 1) o Marx dialético, científico, “desenvolvimentista” e perceptor do socialismo como potencial “apropriador” do ponto mais alto daquilo que ele se propôs a negar; 2) O Marx adaptado às formações sociais cristãs periféricas e 3) O Marx como objeto de estudo da pequena burguesia radicalizada que no campo político se junta ao campo do imperialismo na “denúncia” à “desigualdade”, o “autoritarismo” e o “desenvolvimentismo” chinês.

Inspirado (além dos clássicos do materialismo histórico) em Ignacio Rangel, Armen Mamigonian e Domenico Losurdo, particularmente trabalho com o “Marx item 1”. Como pretenso intelectual da periferia do capitalismo tenho clareza que a própria defesa de um projeto nacional no rumo da construção do socialismo demanda catching-up como política estratégica. É uma questão que envolve redução da desigualdade tecnológica com o centro do sistema, segurança nacional ante um imperialismo cada vez mais violento, formação de uma base de oferta de todo tipo no sentido da superação da miséria e do estabelecimento de um ordenamento legal/jurídico que espelhe a superação da sociedade onde cada um é escravo da necessidade. Onde a produção do valor de troca deixe de ser uma lógica de uma sociedade desigual. Não comentarei aqui os outros “dois Marx”, algo que está sendo desenvolvimento nesta minha agenda de pesquisa aqui na Itália.

Pois bem, o “Marx item 1” está em alta na China. Xi Jinping em 2018 deixou claro que a China deve inaugurar “novas formas de organização industrial” baseado na “incorporação da internet, big data e a inteligência artificial à economia real” (1). Há muito tempo tenho batido na tecla, porém ofuscado pela hegemonia do “Marx item 2” e do “Marx item 3” entre os acadêmicos de “esquerda” no Brasil, sobre o surgimento China de: 1) novas e superiores formas de planificação econômica, cuja consequência são: i) emerção de um novo modo de produção baseado em, ii) uma Nova Formação Econômico Social (NFES). Tenho dito, também, que o “socialismo de mercado” é o nome fantasia tanto desta NFES quanto do novo modo de produção. Já o nome científico seria “Nova Economia do Projetamento”, inspirado na Economia do Projetamento elaborada por Ignacio Rangel na década de 1950.

Por onde deve caminhar minha agenda de pesquisa neste momento? É evidente que em uma análise de uma economia em desenvolvimento algumas questões devem ser respondidas envolvendo instituições, formação de conglomerados industriais e financeiros e políticas macroecônomicas e industriais. Estou me encaminhando ao desfecho da análise das reformas no setor estatal na economia iniciadas no início da década de 1990 e o papel da SASAC (State‑Owned Assets Supervision and Administration Commission) como o “operador” do socialismo de mercado nas atuais condições de uma economia onde a finança e a produção estatais estão em amplo ponto de fusão. Já escrevi muito por aqui sobre isso.

Com Alexis Dantas e Luiz Fernando de Paula muito se encaminhou. Com o primeiro sobre a natureza do socialismo de mercado chinês e suas questões microeconômicas. Com o segundo sobre o papel das reformas institucionais desde a década de 1980 que desembocou na formação de um Estado Desenvolvimentista onde a socialização do investimento opera em patamar elevado.

Uma análise baseado no “Marx ítem 1” demanda estudos sucintos sobre as políticas industriais executadas na China. Eis um caminho a ser desbravado por aqui. Entender a operacionalidade da “incorporação da internet, big data e a inteligência artificial à economia real”. Talvez esteja aí o núcleo do que pretendo, junto com Alberto Gabriele, desenvolver e quem sabe empreender descobertas de cunho científico no mínimo úteis à quem fale sobre Marx, se proclame marxista, mas que realmente tenha lido Marx. Lênin dizia em seus “cadernos filosóficos” que 99% dos marxistas não haviam lido Hegel. Ouso afirmar que cerca de 90% dos marxistas que conheço nunca leram Marx. Alguns acreditam que os débitos dos bancos chineses são insustentáveis e as contas das províncias “não fecham”. Fora o ascetismo cristão latente. Pode?

NOTA:

(1) Speech by Xi Jinping to the opening of the 19th meeting of the Academicians of the Chinese Academy of Sciences
and the 14th meeting of the Academicians of the Chinese Academy of Engineering, May 28, 2018. Hu Yongqi, “Xi
calls for breakthrough in technology,” China Daily, May 29, 2018.

Por: Elias Jabbour.

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