Contra Trump, Biden e Bolsonaro, precisamos reinventar o Brasil

Segue tese nada original no lastro das reações otimistas e pessimistas com a vitória de John Biden nos Estados Unidos. Premissa teórica para possíveis futurologias. Certamente, especialistas em relações internacionais, com pegada marxista, formulem melhor, bem como economistas e pesquisadores de políticas públicas que utilizem métodos não fetichistas.

Parto do óbvio, mas muitas vezes esquecido: para nós, os efeitos dos resultados das eleições lá vão depender das lutas de classes nos seus dois níveis. Vale dizer, no plano interno de cada país e no plano internacional dos conflitos geopolíticos.

Contraditoriamente, o fim do capitalismo depende do seu desenvolvimento e não da destruição criativa de um vendaval esotérico. Vivemos lutas de classes, não esqueçamos desse fenômeno da vida em sociedade. A categoria analítica é abstrata, mas o fenômeno é concreto. Com a vitória de Biden, continuam as lutas lá. E isso vale para eleições em qualquer país, com a vitória da esquerda ou da direita, seja lá o que signifiquem essas expressões em cada contexto.

Em algum momento, cheguei a especular que a vitória de Trump poderia ser boa para nós no sentido de reforçar a continuidade do alinhamento subalterno de Bolsonaro. Situação, pensei, que agravaria nossos problemas internos, pavimentando o caminho de sua derrota em 2022. Ora, evidente que essa subalternidade vai continuar com Biden, e Bolsonaro poderá até, quem sabe, faturar politicamente com isso, na qualidade de estadista bem educado que respeita a democracia dos outros países, ainda mais do seu país-fetiche, modelo ímpar da hipocrisia.

Regozijar-se pela derrota do misógino, racista, medíocre, grosseiro, tudo bem. Ótimo, assim como faz bem gritarmos no Facebook com desabafos marcando posições e princípios para deixar claro os valores que defendemos. Nada contra, ainda mais em relação a um escroque. Vaza!

Entretanto, nunca esqueçamos a pulverização de lutas e causas que acabam fragmentando as lutas de classes de forma até imponderável e neutralizando a possibilidade de lutarmos pela causa nacional. Pela nossa causa nacional!

Os dois níveis de lutas de classes, internas e externas, estão entrelaçados. Vejam: lutas de classes no plural. E, sem pensarmos no Brasil como causa nacional, esqueçam. Se continuarmos a pensar nas nossas desigualdades sociais e econômicas apenas como falhas de mercado e de distribuição de renda, e não como causa nacional, podem tirar o cavalo da chuva.

Não se trata de hierarquizar os dois níveis, sugerindo a valorização de um (externo) em detrimento de outro (interno). Quem luta para diminuir as desigualdades no país luta pela pátria. Só se luta sinceramente pela pátria, diferentemente do chauvinismo bolsonarista, quem reconhece as desigualdades e batalha para acabar com elas. E não com manipulação de princípios, símbolos, flâmulas, cores ou o nome de Jesus Cristo. Ou ainda compactuando com a hipocrisia de achar que neoliberalismo é um fenômeno inevitável da democracia. Fugir da causa nacional é tergiversar.

Muitas vezes nossas lutas internas não são “alinhadas” a nossas lutas externas, e vice-versa, mas são legítimas. Além disso, a potência econômica não vai mudar sua disposição imperialista. Não existe benemerência em geopolítica, mas sim conquista de mercados, guerras, bloqueios econômicos, protecionismo, negociação, conflitos.

O imperialismo não precisa mais de bomba atômica, pelo menos por enquanto, mas sim estrangulamentos econômicos e guerras híbridas, resultando em diferentes tipos de genocídio. Seja pela fome, miséria, manutenção da pobreza, seja pelo não desenvolvimento de novas tecnologias e diferentes ações no jogo conflituoso do capitalismo.

Porém, assim como o palavrório de princípios, a futurologia tem sido um arriscado calcanhar de Aquiles nas análises sobre o capitalismo ocidental em sua fase ultraliberal. Digo ocidental porque a China está se reinventando há décadas no lastro das mudanças que varreram a bipolaridade da primeira guerra fria, utilizando-se do desenvolvimento capitalista, porém com coordenação política estatal. Lá, não tem essa de quererem acabar com empresas estatais. Uma ova! Nem lá, nem em outros países.

Muito se falou em ascensão da direita mundo afora, nos últimos tempos, mas como explicar então o que vem acontecendo em diversos países da América do Sul, tirando essa situação horrorosa do Brasil? Como explicar este país onde o absurdo está feliz como pinto no lixo do descaramento anormal?

Podemos elencar vários pontos positivos e negativos dos governos do PT, mas uma coisa é inegável: a partir da década passada, o Brasil passou a desenvolver ações externas marcadas por uma multilateralidade emblemática, que, incluindo outras razões não geopolíticas, acabou incomodando setores das burguesias nacional e internacional.

Costumo dizer, e agora pensando no próximo domingo, que voto não é cheque em branco, muito menos bibelô de estimação, ou amuleto de pelúcia. Nem diploma para emoldurar paredes de nossa biografia. Vota-se em alguém hoje e, amanhã, contra quem votamos ontem, sem violentar nossos valores e expectativas por um país melhor.

Votam-se em programas, promessas, sonhos – vota-se no menos pior, no discurso mais bonito, no toma-lá-da-cá – sendo que nenhum voto é mais “certo” ou mais “errado” do que outro por conta do seu caráter de “aposta institucionalizada” (boa essa do Guilhermo O’Donnell).

O que acreditamos ser bom pode ser um desastre depois do sujeito eleito. Bolsonaro, no caso, confirmou previsões: desastre total completando dois anos de governo, ainda que haja uma aparente e falsa normalidade no país. Se houvesse uma predisposição qualitativa segura para o voto, talvez não precisássemos dele, mas sim do sorteio, ou da escolha censitária, ou de uma ditadura.

Além disso, esse instrumento faz parte das lutas de classes, dentre outros tantos em diferentes formas dos conflitos. Estes se configuram e reconfiguram em distintas manifestações em cada país e nas relações entre os estados nacionais.

Portanto, aguardemos, embora outra coisa também já está mais do que certa: com Bolsonaro, não existe pátria, nem desenvolvimento capitalista com coordenação estatal. É só destruição. Não será uma suposta benemerência de Biden que vai salvar o Brasil do obscurantismo. O capitalismo ocidental tem sido o desenvolvimento do capitalismo deles, que implica o subdesenvolvimento do nosso capitalismo.

Para bons entendedores, fica claro que defendo outro tipo de sociedade – não a capitalista –, e que uma nova sociedade só é possível a partir dos conflitos da atual existente e não dos nossos desejos e crenças. Não também de uma força esotérica ou das conjunções de Saturno. Depende, dentre outras coisas, do desenvolvimento das chamadas forças produtivas (Marx sempre genial).

Porém, na experiência da dor, da fome e da miséria, ninguém consegue buscar conhecimento e compreensão para além da solução dos seus sofrimentos. E programas distributivos preconizados por organismos internacionais têm sido pouco. Aliás, ao longo das últimas décadas, têm reforçado, para além do imperialismo econômico, a dominação ideológica no sentido de que o nosso problema não seria a defesa da pátria, mas sim de remendos aqui e ali em face das supostas injustiças do mercado.

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