Donald Trump é um sucesso e o mundo ainda não aprendeu a lidar

A já famosa foto da cúpula do G7 (grupo de EUA, Japão, Alemanha, Canadá, França, Reino Unido e Itália), realizada neste fim de semana, em Quebec, pode ser lida nas entrelinhas como um sinal vitorioso para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Trump, às vésperas do encontro histórico com Kim Jong-un, deixou a reunião antes do fim para viajar ao continente asiático. Após sua saída, os líderes restantes do G7 divulgaram o comunicado final da cúpula, no qual os países teriam concordado em trabalhar conjuntamente para reduzir barreiras no comércio internacional.

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, disse ainda que as recentes sobretaxas americanas ao aço e ao alumínio importados de uma série de mercados (incluindo o canadense) são um “insulto” ao seu país. O Canadá não deseja ter suas exportações enquadradas na categoria de ameaça à segurança nacional dos EUA, fundamentação jurídica dada pela seção 232 da Lei de Expansão do Comércio e que foi utilizada pelo governo americano com o argumento de evitar o fechamento de suas indústrias nacionais.

Trump respondeu através de seu perfil no Twitter. Sua resposta foi direta e curta, apontando Trudeau como um sujeito fraco e desonesto. A posição de parceiros europeus do G7, como Alemanha e França, foi de repúdio à reação do presidente americano.

Mas era uma armadilha.

O SEGREDO ESTÁ EM QUEM ELEGEU TRUMP

Trump foi eleito com uma plataforma contrária à globalização, viabilizada eleitoralmente pela brutal desindustrialização do chamado “Cinturão da Indústria” (Manufacturing Belt), que após a década de 1980 passou a ser conhecido como “Cinturão da Ferrugem” (Rust Belt). A região agrega estados americanos do nordeste e do meio-oeste que antes figuravam como os mais antigos núcleos da indústria americana.

Desde 1992, o Cinturão da Ferrugem era tido como parte da “muralha azul” (blue wall), um termo utilizado para tratar de estados americanos nos quais a vantagem eleitoral do Partido Democrata era impenetrável pelos Republicanos. A vitória de Trump alterou essa história, e isso é talvez o fato mais significativo da eleição de 2016.

Com a globalização e sua crescente liberalização econômica mundo afora, as indústrias do Ocidente desenvolvido iniciaram um processo de migração para países onde a força de trabalho e os custos em geral eram mais baratos.

A China, por exemplo, se beneficiou disso em razão da política de manter sua moeda extremamente desvalorizada em relação ao dólar. Os EUA passaram a ter déficits frequentes e cada vez maiores com o mundo, já que a maioria dos produtos consumidos internamente são fabricados em outros países.

Não à toa, uma das principais marcas do governo Trump é a Guerra Comercial travada entre EUA e China, principal potência industrial do planeta nos dias atuais. A batalha americana para impor tarifas e reduzir seus déficits com outros países, no entanto, não se esgota nas relações com o gigante asiático. Washington decidiu se proteger economicamente diante de seus mais próximos aliados, colocando iniciativas como a Parceria Transpacífico (TPP) e o NAFTA em questão.

União Europeia, Canadá, México, Brasil, e uma enorme lista de países já foram afetados pelas medidas do governo americano. Mas o que parece, na verdade, é que ninguém aprendeu ainda a lidar com a “inconveniente” presença de Donald Trump no palco da política internacional.

A GLOBALIZAÇÃO NÃO É UM FRACASSO, NEM TRUMP

Os líderes que cercaram Donald Trump na foto do G7 estão interessados na continuidade dos EUA como patrocinadores da globalização econômica. A outra opção é ter a China ocupando este cargo, o que tem se tornado uma realidade cada vez mais iminente.

O problema, para o Ocidente, em aceitar a China como patrocinadora da globalização, algo que na Ásia já está cada vez mais consolidado, é que há diferenças estruturais entre os personagens em questão.

A China sofreu uma humilhação sem precedentes das potências europeias no século XIX. Os chineses contém laços diversificados com outras potências não convencionais, como a Rússia, por exemplo. Como se não bastasse, patrocinam instituições financeiras multilaterais, diferentes do FMI e do Banco Mundial, nas quais os países ocidentais possuem pouca voz.

Uma ordem mundial tutelada pela China não seria uma na qual os europeus teriam o mesmo poder de decisão que possuem num mundo protegido e financiado pelos EUA. O que está em jogo é o equilíbrio de poder entre Ocidente e Oriente, não o fim da globalização.

A globalização continua avançando, apesar dos gritos antiglobalistas. E nem poderia ser diferente. Quando a Inglaterra da Revolução Industrial ergueu-se como potência manufatureira sem concorrência, foi fácil advogar pelo liberalismo dos outros países.

Da mesma forma, foi fácil defender o liberalismo quando os EUA dominavam a maior parte da produção industrial do planeta. O que se esquece, geralmente, é que até a década de 1920, e durante todo o século XIX, foi em função de uma das maiores arquiteturas econômicas protecionistas que os EUA atingiram o posto de país desenvolvido, prontos para impor sua superioridade ao resto do mundo.

O que estamos vivendo agora parece mais o retorno dos Estados Unidos à uma concepção de política econômica anterior à sua hegemonia, do que propriamente o fracasso da globalização.

Está em pleno andamento, por exemplo, a negociação da Parceria Regional Econômica Abrangente (RCEP), um projeto de liberalização comercial envolvendo 16 países do sudeste asiático mais China, Índia, Japão, Coréia do Sul, Austrália e Nova Zelândia.

O Ocidente não foi capaz, ainda, de formular uma resposta consequente à mudança do pólo econômico mundial para a Ásia, e isso assusta as diversas lideranças envolvidas. Trump, porém, deu o primeiro passo, propondo uma nova forma de interação dos EUA com o mundo por meio da qual os americanos se recusam a jogar parados.

O resultado, até o momento, tem sido patamares baixíssimos de desemprego e a retomada de setores importantes da indústria.

Enquanto os líderes do G7 cercavam o presidente americano de maneira desafiadora, e mesmo desesperada, Trump devolvia ironicamente cada olhar. Morderam a isca. É disso que o mais imprevisível presidente dos EUA das últimas décadas precisava: o enfrentamento fútil de um adversário que já perdeu, para dar-lhe a satisfação de ver seus eleitores convencidos de que Trump é inquebrantável em seus objetivos e cumprirá a palavra de proteger a indústria de seu país.

2 Comentários

  • […] Donald Trump, apesar das aparências, não tornou a política externa dos EUA mais agressiva. Os tuítes virulentos contra a Coréia do Norte no começo da gestão terminaram num encontro inédito com o líder Kim Jong-Un. Se concretizado, esse acordo colocará Trump num lugar de destaque na história da diplomacia internacional com a possível desnuclearização da península coreana, enclave altamente complexo da Guerra Fria, que passa por dificílimas negociações com a China, o gigantesco parceiro comunista dos norte-coreanos. Por outro lado, ele acirra cada vez mais as tensões com o Irã, ameaçando romper o importante acordo nuclear assinado por Estados Unidos, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha. […]

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