Israel e a Palestina: o que está por trás da proposta de Trump?

A política externa dos Estados Unidos em relação ao Oriente Médio, desde a posse de Donald Trump como presidente, tem passado por uma série de transformações.

Mudanças no engajamento em relação ao Afeganistão e Síria, por exemplo, levaram à saída de John Bolton, manda-chuva da Segurança Nacional do governo Trump e muito bem relacionado com o establishment  militar do Pentágono.

Quanto ao Irã, apesar do alvoroço midiático que os acontecimentos recentes causaram no imaginário popular, a ação norte-americana (assim como a resposta iraniana) foi calculada e planejada, não muito diferente do desenvolvimento da relação entre Estados Unidos e Coréia do Norte nos últimos anos, projetada para não ultrapassar um determinado ponto de não-retorno e testar os limites dos adversários.

Apesar da retórica incendiária e pouco comedida, há certa racionalidade na política externa de Donald Trump. Mesmo que não tenha havido até o momento grandes conquistas no que diz respeito a construção da paz internacional (e provavelmente não haverá), é certo que a grande ofensiva do período precedente, desde a invasão do Iraque e do Afeganistão, passando pela destruição da Líbia e pelo nascimento do Estado Islâmico por responsabilidade da agressiva intromissão dos EUA no Oriente Médio, foi parcialmente esvaziada.

Prova disso é o crescente desconforto dos falcões do Pentágono com a presença de Donald Trump na Casa Branca, que veem isso como um retrocesso em benefício de outras potências como a Rússia.

Agora, o anúncio de um plano para a resolução do conflito entre Palestina e Israel, pressupondo a criação de um Estado Palestino (demanda histórica dos palestinos), parece seguir a mesma receita: i) ação extremamente calculada; ii) perspectiva de pequenos ganhos de curto prazo; iii) inexistência de uma solução de longo prazo.

Perspectivas de curto prazo

A estratégia de alinhamento entre Trump e Netanyahu ganhará fôlego. Em nível doméstico, ambos enfrentam dificuldades. Trump foge de um processo de Impeachment já em estágio avançado, enquanto Netanyahu tenta despistar investigações de corrupção às vésperas de mais uma eleição em Israel.

Parte do eleitorado simpatizante de Israel nos EUA tende a aprovar a proposta de Trump, que envolve ganhos territoriais exuberantes para o Estado israelense. Em Israel, a votação do Parlamento sobre garantir ou não imunidade para Netanyahu nas investigações em curso ocorrerá justamente no dia em que os líderes dos dois países se encontrarão na Casa Branca para discutir formalmente a proposta de paz.

Eleitoralmente, Netanyahu ganha mais um ativo em sua campanha: com ele, Israel pode se alimentar da esperança de consolidar seu expansionismo territorial. Seu adversário, Gantz, que também foi convidado para as conversas com Trump, já chegará na defensiva, não cabendo a ele frustrar uma agenda territorialista tão promissora.

Perspectivas de longo prazo

Concretamente, contudo, o plano já nasce morto. Não há a menor possibilidade de ser aceito pelos palestinos. Estes nem sequer foram convidados por Donald Trump para negociar os elementos da proposta.

É duvidoso que o governo norte-americano esteja, inclusive, trabalhando com a esperança de uma efetiva implementação do plano. Não há objetivo geopolítico realmente almejado, apenas objetivos de curto prazo de caráter eleitoral, apostando na sobrevivência dos dois líderes no cenário político mais imediato.

Na melhor das hipóteses, será oferecido aos palestinos uma espécie de apoio financeiro para a construção de um país (fala-se em algo em torno de US$ 50 bilhões). Do lado dos palestinos, já se fala em uma nova intifada, ou seja, uma revolta contra a ocupação israelense. Nota-se que a proposta abstrai artificialmente qualquer materialidade conjuntural, indicando que as partes envolvidas estão em universos radicalmente diferentes.

O delicado equilíbrio geopolítico de Trump no Oriente Médio

Não se trata de pintar Trump como o arauto do fim do imperialismo norte-americano. Através de seu governo, os EUA prosseguem atuando violentamente no Oriente Médio em busca de seus objetivos.

O retorno da Rússia ao tabuleiro, ao lado de outros jogadores respeitáveis como Irã e Turquia, seguido de fracassos estratégicos dos EUA na região, mostraram que o governo Trump age não apenas com a cautela que a situação exige (ainda imperialista), mas, principalmente, com uma racionalidade que os governos anteriores crescentemente ignoravam em prol da fome armamentista do establishment militar.

Há também uma sensação de esgotamento do apoio popular nos EUA em relação a invasões de países que não possuem a menor possibilidade de realizar um ataque em território norte-americano. As famílias do meio-oeste que votaram em Trump o fizeram para recuperar seus empregos, mas também para trazer de volta seus filhos que correm risco diariamente do outro lado do mundo.

Trump foi eleito na esteira do mesmo fenômeno de desabamento do consenso tecnocrático, portador da bandeira da austeridade, que se antecipou com o Brexit e que priorizava os números e as armas ao invés dos empregos e das famílias.

Vale lembrar que, no Reino Unido, o slogan da campanha vitoriosa do Brexit era Take Back Control, retomar o controle.

Há algo mais invasivo e que retira mais o controle das mãos de uma família comum do que um filho recebendo uma carta de convocação para o alistamento militar, na iminência de uma guerra que pode matá-lo?

A política externa de Donald Trump parece considerar isso a todo momento. Cada vez menos tropas são engajadas em missões extraterritoriais no Oriente Médio, e cada vez mais as ações militares são levadas a cabo por drones controlados a milhares de quilômetros de distância.

Nesse cenário, Trump precisa reforças suas alianças locais. Fortalecer o Estado de Israel, em especial o governo de seu aliado Benjamin Netanyahu, é imperativo. Uma derrota de Netanyahu nas eleições que se seguem tornariam o cenário ainda mais incerto para os EUA.

A proposta de paz não deixa de ser um teatro, mas foi calculada para sustentar o equilíbrio delicado à frente de Trump, e que envolve, de um lado, proteger os interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio e, de outro, atender às demandas de seu eleitorado doméstico.

 

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