Trump anuncia ataque na Síria: o que está em jogo

CORRIDA ARMAMENTISTA 2.0

Vários paralelos entre a situação atual de conflito latente entre EUA e Rússia no Oriente Médio e o cenário da Guerra Fria do século passado já foram feitos. Na Síria, os Estados Unidos lutam pela derrubada do governo de Bashar Al-Assad, enquanto a Rússia batalha pela sua manutenção.

Desde a Primavera Árabe, em 2011, quando as tensões se agravaram, o governo sírio sofreu duras derrotas. Com a entrada de uma coalizão liderada pela Rússia em 2015, os EUA, que não haviam entrado diretamente no conflito mas já participavam com financiamento dos grupos rebeldes, assistiram ao retorno magistral da Rússia ao tabuleiro mundial sob a liderança de Vladimir Putin.

Após a intervenção no Afeganistão, no Iraque e na Líbia, os EUA se encontraram politicamente desgastados para guerrear em mais um país da região. A crise econômica de 2008 complicou ainda mais a situação do país norte-americano, que viu sua liderança global desmoronar junto com as desconfianças populares sobre os valores do neoliberalismo e da operação da hegemonia norte-americana mundo afora. Cabe então a pergunta: por que os EUA voltaram a se interessar pela ação direta na guerra da Síria?

É possível especular alguns desdobramentos ainda em curso. Em primeiro lugar, há a ascensão econômica irreversível da China, que incomoda demasiadamente os americanos. Em segundo lugar, há a oposição dura que Trump vem enfrentando internamente, o que tornaria um sucesso geopolítico cada vez mais atrativo para o cálculo político das forças que sustentam o presidente. Finalmente, há um fato muito recente, pouco abordado porém extremamente relevante: o anúncio das novas armas “invencíveis” de Putin em seu discurso realizado em 1º de março em Moscou.

O presidente russo, cerca de três semanas antes de se reeleger para um novo mandato seis anos, apresentou ao mundo um sistema pesado de mísseis intercontinentais (“Sarmat” ou “Satã 2”), um míssil de cruzeiro com propulsor nuclear, veículos subaquáticos não tripulados com propulsão nuclear, um sistema de mísseis hipersônicos de lançamento aéreo, um sistema de mísseis estratégicos com unidade hipersônica de planejamento e um sistema de armas a laser.

De acordo com Putin, os novos armamentos russos são capazes de inutilizar qualquer escudo antimísseis, tornando ultrapassada toda a defesa dos potenciais inimigos da Rússia.

O ponto-chave de análise para o anúncio de Putin é a inversão total da corrida armamentista realizada entre EUA e União Soviética durante a Guerra Fria: naquela conjuntura, os EUA tinham uma vantagem econômica insuperável pela URSS. A economia russa continua muito inferior a economia norte-americana hoje, porém o contexto no qual o jogo de forças está inserido é completamente diferente.

A Rússia conta com a segunda posição militar mais privilegiada do planeta, mesmo que alguns de seus novos armamentos de alta tecnologia não passem de retórica de barganha. Em qualquer cálculo militar realizado pelos EUA, deve-se levar em conta o poderio russo.

A Rússia possui relações pŕoximas com a China, inclusive economicamente, e a China ameaça o poder econômico norte-americano dia após dia. Também a tecnologia, a estrutura e o orçamento militar da China crescem ano após ano.

Por fim, é necessário lembrar dos acontecimentos recentes na Coréia do Norte. Os EUA sofreram um duro revés com a rebeldia norte-coreana, que apesar de possuir um poderio militar largamente inferior ao dos Estados Unidos, desenvolveu a capacidade de preservar a própria soberania, diferente de Iraque, Líbia e Síria, mas algo próximo ao que também vem desempenhando o Irã.

Justo no momento, portanto, em que ocorre uma reação em cadeia ao poder dos Estados Unidos, Putin lançou sua nova estratégia de corrida armamentista: Os EUA, em posição de desgaste geopolítico e geoeconômico, necessitam revelar alguma espécie de reação.

A Síria é o gargalo mais imediato à hegemonia norte-americana no momento. Todos sabíamos que o tabuleiro estava posto e que a partida já estava em curso. Agora sabemos claramente quem são os jogadores.

HISTÓRICO DA DISPUTA GEOPOLÍTICA NA SÍRIA (1949-2018)

1949: A CIA derruba o presidente Shukri-al-Quawtli, democraticamente eleito, por se opor à construção do Trans-Arabian Pipeline (Tapline), projetado pelos Estados Unidos para transportar petróleo da Arábia Saudita até os portos do Líbano, passando pelo território sírio.

1955: Shukri-al-Quawtli elege-se novamente presidente, pelo Partido Nacional. Declara-se neutralista em meio ao início da Guerra Fria entre EUA e URSS.

1956: O Secretário de Estado dos Estados Unidos, John Foster Dulles, envia instruções ao embaixador dos EUA em Damasco, James S. Moos, para procurar meios de apoiar as empresas ocidentais que estivessem competindo com o bloco soviético para a construção da refinaria nacional de petróleo da Síria.

1956: A Operation Straggle, lançada pelos serviços de inteligência da Turquia, Grã-Bretanha e Estados Unidos com o objetivo de deflagrar conflitos fronteiriços na Síria, é descoberta e impedida pelo serviço de inteligência militar da Síria, sob chefia do coronel Abd al Hamid al Sarraj.

1957: A Operation Wappen, lançada pelo serviço de inteligência dos Estados Unidos na tentativa de incitar um complô de oficias sírios, fracassa.

1970: Assume o poder o general da Força Aérea, Hafez al-Assad, pai do atual presidente Bashar al-Assad. Hafez estabiliza os conflitos políticos do país e, em reação às constantes pressões dos Estados Unidos, aproxima-se da União Soviética.

1980: A Síria de Hafez al-Assad formaliza o Tratado de Amizade e Cooperação com a União Soviética de Brejnev.

2000: Morre o presidente Hafez al-Assad. Seu filho, Bashar al-Assad, assume o governo.

2009: O Wikileaks vaza telegramas diplomáticos secretos que indicam financiamento dos Estados Unidos à movimentos de oposição ao governo sírio, em valores que chegariam até a 12 milhões de dólares, desde 2005.

2009: Bashar al-Assad se recusa a assinar o acordo de construção de um gasoduto que ligaria uma das maiores reservas de gás natural do mundo (distribuída territorialmente entre o Qatar e o Irã) à Turquia, passando pela Arábia Saudita, Jordânia e Síria, a fim de abastecer o mercado europeu. A iniciativa partiu do Qatar.

2011: A Síria anuncia a negociação da construção de um gasoduto alternativo, que partiria do Irã ao Líbano, aprofundando a dependência da União Europeia em relação ao gás natural proveniente de zonas de influência russa. A iniciativa partiu do Irã.

2011: Manifestações de movimentos opositores ao governo sírio se iniciam no país, no contexto da Primavera Árabe. O presidente Obama e líderes europeus pedem a renúncia de Assad.

2011-2013: Forma-se o Exército Livre da Síria, grupo rebelde armado, notadamente com financiamento e fornecimento de armas estrangeiros. O Qatar participou com financiamentos de até 3 bilhões de dólares e oferecimento de recompensas no valor de 50 mil dólares para desertores das Forças Armadas Sírias.

2013: Um oficial das Forças Armadas dos EUA divulga na imprensa o recebimento de material bélico da CIA por forças rebeldes sírias.

2013: Um ataque com gás sarin mata mais de 1.000 pessoas em Ghouta, na Síria. Os EUA, contudo, falham em conseguir amplo apoio interno e externo que justificasse uma invasão. Em vitória diplomática, a Rússia consegue apoio para firmar um acordo de inspeção e eliminação de armas químicas em território sírio. A Organization for the Prohibition of Chemical Weapons (OPCW) ficou responsável pela operação.

2015: A Rússia intervêm na Guerra Civil síria ajudando o governo de Bashar al-Assad a recuperar o território perdido nas frentes contra rebeldes armados e Estado Islâmico.

2017: Em abril, após ataque com armas químicas na Síria que deixaram 86 mortos, EUA responsabilizam Bashar Al-Assad e lançam o primeiro ataque direto ao território sírio: 59 mísseis Tomahawk. Segundo o Pentágono, 20% do arsenal aéreo da Síria foi destruído pelo ataque.

Hoje: Após o ataque com armas químicas em Duma, na Síria, ocorrido no dia 7, iniciou-se uma nova escalada de tensão. Hoje, os EUA, o Reino Unido e a França anunciaram um ataque em andamento contra estabelecimentos de armas químicas na Síria.

Fontes do histórico: “A desordem Mundial”, Luiz Alberto Moniz Bandeira; “Syria: another pipeline war”, Robert F. Kennedy Jr.

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