Trump tenta marcar posição

Um dia depois de tuitar forte declaração sobre eventual intervenção bélica dos Estados Unidos na Síria, o Presidente americano Donald Trump abrandou seu discurso.

Por meio de sua conta no Twitter, Trump disse o seguinte hoje:

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Em tradução livre:

“Jamais disse quando o ataque à Síria ocorreria. Pode ser em breve ou não tão em breve mesmo! Independentemente disso, os Estados Unidos, sob minha administração, têm feito um ótimo trabalho em se livrar do Estado Islâmico na região. Onde está o nosso “muito obrigado, América”?

O tuite de Trump, postado hoje, é um complemento à sua agressiva declaração de ontem, de acordo com a qual um ataque americano à Síria já é iminente, em decorrência ao suposto ataque químico do Exército da Síria a Douma, cidade controlada pelos rebeldes em Ghouta Oriental, no subúrbio de Damasco, ocorrido no último sábado.[1]

A declaração, contudo, não foi direcionada à Síria. Em postura beligerante, Trump recomendou à Rússia que se prepare para a ofensiva americana ao território de Bashar al-Assad.

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Em tradução livre:

“A Rússia promete derrubar todo e qualquer míssil disparado contra a Síria. Prepare-se, Rússia, porque eles estão vindo, bons, novos e ‘inteligentes’! Vocês não deveriam ser aliados de um animal que mata pessoas com gás e gosta disso!”.

Em seguida, Trump fez outro tuite declarando a péssima relação entre os Estados Unidos e a Rússia.

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Em tradução livre:

“Nossa relação com a Rússia está pior do que jamais esteve, e isso inclui a época da Guerra Fria. Não há razão para isso. A Rússia necessita de nós para sua economia, algo muito fácil de se fazer, e nós precisamos de todas as nações trabalhando juntas. Vamos parar a corrida armamentista?”.

Apesar da postura agressiva do presidente americano, é difícil acreditar que ele tenha a intenção de um acirramento militar com Putin.

Diversos acontecimentos recentes parecem demonstrar que Trump vai “latir”, mas dificilmente “morderá”.

A eleição do presidente americano ficou marcada de forma negativa pela participação da Rússia ao longo do período de campanha eleitoral. Essa polêmica, que não deixou de ser comentada pelos periódicos, voltou a ser destaque com o depoimento de Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, ao Senado americano no último dia dez.

Dentre as várias perguntas que Zuckerberg teve que responder acerca do direito à privacidade (decorrentes do escândalo da venda ilícita de dados de usuários à empresa Cambridge Analytica), o CEO do Facebook falou abertamente sobre os esforços que a equipe de segurança da rede social fará para que as eleições presidenciais deste ano ao redor do mundo sofram o mínimo possível com as fake news e demais formas negativas de interferência digital, como ocorreu nas eleições americanas.

A posição agressiva de Trump parece ter o intuito exclusivo de marcar uma posição independente e de certa forma conflituosa com a Rússia. O tuite de hoje, abrandando a fogueira que o presidente americano acendeu ontem, parece confirmar isso.

Sua eleição foi permeada por propostas e posicionamentos nacionalistas, protecionistas e opostos à globalização econômica.

Trump está atento. Ainda que não haja um jogo de xadrez claramente definido entre o leste europeu e o ocidente até o presente momento, Putin parece estar mais bem preparado para mover suas peças.

Político de referência e altamente aprovado em um país que passou por intensa transição política e institucional em 1991, Putin dá mostras de que é possível manter o patriotismo de seu povo durante e após tais transições.

A tentativa de assassinato do espião russo considerado traidor de sua pátria, a apresentação do novo armamento nuclear “invencível” e que “inutiliza escudo antimísseis” para “assegurar a paz no mundo” e a reeleição para seu quarto mandato consecutivo com 76,67% dos votos (recorde histórico) são apenas alguns dos acontecimentos recentes responsáveis pelo seguinte recado do leste europeu ao ocidente: as forças estão sendo “reequilibradas” a todo instante.

Enquanto isso, Trump trava sua guerra comercial com a China – que responde com igual vigor – e brada aos quatro ventos que cumprirá a promessa de campanha de construir o muro na fronteira com o México, justamente quando o fluxo migratório dos mexicanos para os EUA se encontra em queda livre.

 

[1] O ataque teria matado 42 pessoas e ferido ao menos 300. Esses números são de organizações humanitárias, e não de fontes oficiais.

1 Comentário

  • O Trump chegou aonde chegou, mas me parece um ser muito primário. Essa linha de atrito com a Rússia, a meu ver, é uma forma de mostrar para a opinião pública – ao menos à parcela que nele confia – que as pretensas ilações sobre ligações secretas e espúrias entre Trump e a Rússia são intriga da oposição…

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