Turquia e Rússia testam seus limites em disputa sobre o destino da Síria

A situação na Síria fica cada vez mais dramática. Nesta semana, o governo de Bashar al-Assad alcançou uma vitória estratégica sem paralelo desde o início da guerra civil que começou há nove anos.

Sem o apoio da Rússia, que controla o espaço aéreo do país, certamente não teria ocorrido o avanço do governo na direção noroeste, para a província de Idlib, expulsando os rebeldes de uma região sensível para a segurança e para a integração de importantes cidades como Aleppo e Damasco.

Mas, se Assad extraiu disso uma vitória significativa, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, está muito insatisfeito.

A permanência da Turquia na região, próxima da fronteira entre os dois países, é considerada uma posição fundamental para os formuladores da geopolítica turca. A razão disso é a presença das Unidades de Proteção Popular (YPG), milícias curdo-sírias que guardam relação com a minoria curda que luta por autonomia dentro do território turco.

Os bombardeios aéreos levados a cabo por Rússia e Síria em Idlib prejudicam sensivelmente os interesses turcos em três frentes diferentes:

  • soldados turcos já perderam a vida;
  • um êxodo de milhares de civis (fala-se em cerca de 800 mil) se direciona para a fronteira com a Turquia, buscando atravessá-la;
  • postos de observação das forças turcas na região, acordados internacionalmente em 2018, inclusive com os próprios russos, estão sendo afetados.

A reação, por outro lado, ocorre em duas frentes diferentes:

  • a Turquia fechou a fronteira com a Síria e está construindo casas no lado sírio para abrigar as famílias refugiadas;
  • Turquia e Rússia, desde segunda, ativaram seus canais de comunicação para buscar formas de reduzir as tensões disparadas pela vitória do governo de Assad.

Como já foi mencionado nesta coluna, essa vitória poderia implicar, quase literalmente, no fim da guerra civil. Do ponto de vista do conflito entre governo e rebeldes, está claro que o governo retomou os pontos mais estratégicos e controla, atualmente, quase a totalidade do território nacional.

Por outro lado, a resolução do conflito depende enormemente do equilíbrio entre Turquia e Rússia, os dois atores externos mais importantes na região. Caso ambos focassem em resolver a crise humanitária, que interessa à Turquia mais do que a qualquer outro, um processo de pacificação poderia ter início.

Infelizmente, sinais apontam que a região caminha para um desastre. Não à toa, isso jogou luz sobre a questão síria, que já há algum tempo vinha sendo encarada tediosamente pela mídia internacional em virtude da sua longa duração e indefinição.

Fato é que, desde a tentativa de golpe barrada por Erdogan em 2016, a Turquia vem se aproximando sutilmente da Rússia, até mesmo adquirindo desta um avançado sistema de defesa antiaérea que aborreceu seus aliados da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), da qual os turcos participam.

Relativamente isolado de seus tradicionais aliados ocidentais, que o enxergam como um líder nacionalista e autoritário, Erdogan agora enfrenta também os interesses russos que estão entrando em rota de colisão.

A Rússia jamais desviou de seu objetivo de fortalecer o governo de Assad, trabalhando ao lado do Irã para sustentar um aliado central no Oriente Médio. Isso não impediu que fosse ensaiada uma espécie de aproximação com a Turquia, motivo pelo qual a diplomacia russa aposta em acomodar, de alguma forma, os interesses turcos.

Ocorre que a Turquia, assim como a própria Rússia, retornou ao tabuleiro internacional como uma força respeitada e relativamente autônoma.

Até a Primeira Guerra Mundial, a Síria era parte do Império Otomano, o que projeta para o presente a importância de todo aquele território para a geopolítica turca. Não será fácil convencer Erdogan de que a melhor saída é aceitar a sobrevivência de Assad no poder, ou muito menos de que os turcos devem abandonar seu engajamento ao sul da fronteira.

Por esse motivo, o mundo está alarmado diante da afirmação do presidente turco segundo a qual é apenas uma questão de tempo até que a Turquia reaja com uma operação militar em Idlib.

Sem apoio da OTAN, que não pretende intervir em território sírio dominado pela força aérea da Rússia, levanta-se a hipótese de que uma ação militar turca seja um movimento extremamente arriscado. Além disso, seria o primeiro enfrentamento direto entre o exército da Turquia e o governo da Síria, pois, até então, a atuação turca vem ocorrendo de forma indireta pelo apoio aos rebeldes.

Há apenas uma verdade incontestável neste conflito, que é pintado de todas as cores por todos os lados, e é esta: falar em governo da Síria é falar em Bashar al-Assad, é falar em Bashar al-Assad é falar em Vladimir Putin.

1 Comentário

  • Posso estar errado, mas vejo mais uma ação militar turca em forçar uma nova negociação fronteiriça do que ambições territoriais.

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