Suicídio de Vargas e a Invenção do Trabalhismo

Há 65 anos, o Brasil vencia uma das maiores batalhas de sua História.

Traído por muitos, acuado pela grande mídia e pela burguesia entreguista, perdendo o poder para uma arremedo de governo policialesco nas mãos de oficiais superiores da Marinha, e recebendo um ultimato do Exército, Getúlio Vargas e seu projeto pareciam ter falhado diante de seus inimigos liberais, encarnados na figura histérica e de mau agouro chamada Carlos Lacerda.

Enquanto seu gabinete de crise, incluindo sua filha Alzira, tentavam encontrar uma saída para o golpe, Getúlio já tinha plena consciência de que até mesmo entre os que se encontravam no Catete e podiam mexer peças importantes do jogo havia os que comiam no prato dos inimigos da Pátria.

Carlos Lacerda e demais conspiradores comemoravam com taças de champanhe. A campanha urdida em cima do moralismo anti-corrupção havia funcionado e angariado apoio de grande parte da classe média, mobilizada por meio dos grandes jornais. A tendência que ficaria conhecida como “lacerdismo” na vida política brasileira estava amadurecida. De agora em diante ela iria crescer, com apoio dos intelectuais da USP e cada vez mais da burguesia paulista, que já mirava uma associação com as multinacionais.

Eles não esperavam a carta na manga que Getúlio jogou na mesa: suicídio acompanhado de uma carta-testamento que levou as classes populares, a “ralé” e boa parte da classe média às ruas, em rebelião contra aqueles que ameaçavam seu líder.

Para maior efeito, Vargas mobilizou o imaginário cristão de nosso povo, dando ares de martírio ao seu ato, mostrando-o como escudo contra forças apátridas, tecendo analogias com a figura de Cristo e da eucaristia, e apontando o tema da escravidão, do inimigo externo e interno. Sua carta não é a de uma vítima, não era de rendição: “E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória”.

Ao longo das décadas, alguns levantaram dúvidas sobre o suicídio, alegando que Getúlio teria sido morto, talvez, que tudo seria uma armação. Depois da divulgação dos diários e correspondências do Presidente, essa teoria cai por terra. Vargas contemplou o suicídio como derradeira arma política em outras ocasiões, chegando inclusive a escrever bilhetes e cartas com o mesmo teor daquela que acabou legando como “testamento”. Foi assim no início da Revolução de 1930 e também quando lhe chegaram notícias da contra-revolução paulista, em 1932. Aconteceu também quando cresceram os boatos de que seria preso em São Borja, em 1946, por aqueles que queriam impedi-lo de retornar ao cenário político.

Longe de ser um ato impensado, fruto de decepção, frustração e devaneio, o tiro que Vargas disparou contra o coração foi objeto de sua reflexão durante décadas, assim como a melhor maneira de atrair a fúria vingadora das massas que liderava. Sua mentalidade era um misto de Daimiô japonês e de Patriarca romano, para os quais a derrota final era inadmissível e qualquer mácula na honra inimaginável.

A carta-testamento de Getúlio consolidou o programa político que o trabalhismo revolucionário deveria seguir. Poderes estrangeiros queiram submeter e espoliar a Pátria brasileira. Eles se uniam com uma quinta-coluna de exploradores internos, sequiosos pela escravização do povo brasileiro. O caminho para o país era o nacionalismo, a industrialização, a soberania popular, a guerra por sua independência e liberdade.

Seus seguidores perseguem esse programa ano após ano, nas batalhas cotidianas contra aquelas mesmas forças subterrâneas que sabotavam o Brasil então. E aqueles que pensam que nos venceram, mais uma vez se iludem. Nossa causa é invencível, ainda que soldados nossos caiam derrotados.

Vargas foi o verdadeiro construtor da República. Foi o maior democrata que já existiu nesse país, mesmo quando impôs um governo autoritário. Suas políticas redesenharam as instituições, industrializaram o Brasil e, mais importante ainda, aumentaram a participação popular de um maneira nunca antes feita e depois não mais repetida.

A inclusão do povo no sistema político, realizada por Getúlio, se deu, por um lado, por meio da extensão dos direitos sociais em um país que era e ainda é vinculado a uma herança escravista nas relações de trabalho. Por outro lado, Vargas propôs pela primeira vez a construção da identidade brasileira em torno do ethos e das práticas populares.

Ainda faremos jus à sua memória.

Por: André Luiz Dos Reis.

1 Comentário

  • Perfeito, irretocavel, o dia de ontem, 24 de agosto, um dia sera nosso Amanha. Saudacoes trabalhistas!

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