IDH do Brasil é pior que da Venezuela: queremos ajuda humanitária?

Desde a década de noventa o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), através do Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) divulga um índice anual de desenvolvimento humano que avalia informações sobre educação, renda e saúde de diversos países. Os números do índice vão de 0 a 1, e quanto mais próximo de 1, mais bem avaliado.

O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), como é conhecido, foi criado pelo economista indiano Amartya Sen (Nobel da Economia em 1998) e pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq, e chama atenção para aspectos importantes do desenvolvimento que não o crescimento econômico.

Nos dados do IDH divulgados pelas Nações Unidas no ano passado, 189 países foram analisados e enquadrados num ranking. O Brasil consta na 79º posição, posicionando-se como 5º melhor IDH da América do Sul.

À frente do Brasil estão Chile (44º), Argentina (47º), Uruguai (55º) e Venezuela (78º).

O interessante em tratar esses dados agora é que, no exato dia de hoje, o Brasil participa, ao lado de Colômbia, Estados Unidos e outros países, de uma coordenada ação de entrega de ajuda humanitária para a Venezuela.

A Colômbia ocupa nada menos do que a 90ª posição no ranking de IDH das Nações Unidas, e o Brasil encontra-se à frente da Colômbia mas também atrás da Venezuela.

Como sabemos, o presidente Nicolás Maduro rejeitou a ajuda humanitária (solicitada pelo autodeclarado presidente interino Juan Guaidó, que não foi eleito e ironicamente conta com o apoio de mais de 50 países que “zelam pela democracia” venezuelana) e as fronteiras do país encontram-se todas fechadas. Os pontos de coleta são Colômbia, Brasil e Curaçao.

Seu argumento é de que a armação de todo esse contexto nas fronteiras do país, a contragosto do governo venezuelano, não passa de pretexto para, criadas as confusões, o país seja vítima de uma ofensiva militar internacional com o objetivo último de apoderar-se das maiores reservas conhecidas de petróleo do planeta.

Sendo o IDH muito utilizado como critério de avaliação para programas de ajuda humanitária, o que justifica todo esse teatro humanitário internacional em torno da Venezuela?

De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2018, o IDH da Venezuela, que em 1999 – quando Hugo Chávez foi eleito o 56º presidente do país – era cerca de 0,670 (138º no ranking), hoje é de 0,761 (uma melhoria de 60 posições). No entanto, há um declínio visível desde 2014, o que ainda assim não justificaria tanto alarmismo.

É óbvio que há uma crise, mas suas causas devem ser devidamente avaliadas. Culpar meramente o chavismo pela crise na Venezuela sem estudar seu significado e suas consequências, não apenas é desleal como atenta contra a própria matemática! Não dizem os números que a qualidade de vida na Venezuela aumentou? Alguém se arrisca a explicar como era a Venezuela antes do chavismo? Ou ainda, quem está disposto a analisar a crise econômica venezuelana à luz do declínio vertical do preço do barril do petróleo a partir de 2014?

Em 2014, o barril de petróleo Brent era negociado no mercado internacional a US$ 115. Menos de dois anos depois seu preço era de US$ 37. O petróleo correspondia a 90% das exportações da Venezuela.

Chama a atenção, também, o que disse em sua rede social o ex-senador e ex-governador do Paraná Roberto Requião:

Enquanto isso, por exemplo, pode-se extrair da base de dados do IDH que no Brasil o coeficiente de desigualdade é de 23.2, enquanto na Venezuela é de 16.2. Certamente, a Venezuela apresenta quadros assustadores em diversas áreas, sintoma do esgarçamento do tecido social atualmente em curso seja pela queda de preços internacionais do petróleo, seja por erros de política econômica do governo Maduro, seja pela pressão internacional exercida sobre o país com o objetivo de iniciar um regime change, ou seja, de derrubar o governo.

A taxa de homicídios a cada cem mil habitantes na Venezuela é superior à do Brasil. No entanto, países como Brasil e Colômbia, que participam ativamente dos esforços humanitários para a Venezuela, também estão entre os dez países mais violentos do mundo segundo o mesmo critério. A Colômbia, por sinal, é o quarto país com as taxas mais altas.

Não cabe aqui ignorar a grave questão social da Venezuela. Mas respeitamos a soberania do país, que deliberadamente, através de instrumentos de diálogo diplomático, solicitou ajuda humanitária da Rússia, um país aliado do governo de Maduro.

Com qual moral o Brasil e a Colômbia se propõe a, desafiando a soberania venezuelana, participar do teatro da ajuda humanitária montado pelos Estados Unidos? Em outro texto, já avaliamos as variáveis geopolíticas da guinada da política externa brasileira em meio à crise no país vizinho.

Por fim, pode-se indagar a respeito da credibilidade dos dados utilizados pelas Nações Unidas na construção do índice de desenvolvimento humano. Caso sejam colhidos de agências governamentais, seria possível confiar nos dados disponibilizados pela República Bolivariana da Venezuela?

O próprio site do PNUD afirma que o Relatório de Desenvolvimento Humano não extrai dados diretamente de fontes estatísticas nacionais. Logo, além de ser utilizada a mesma metodologia para calcular o IDH de todos os países analisados, as Nações Unidas não dependem única e exclusivamente de órgãos internos de cada país para coletar informações.

O Brasil deveria preocupar-se em resolver a própria crise econômica, achar uma saída para os 13 milhões de desempregados, o problema interno de violência, a ofensiva internacional sobre a nossa própria soberania, ao invés de se intrometer em assuntos externos a mando de grandes potências.

Se a crise brasileira se alongar, em breve essas mesmas potências encontrarão uma justificativa para bater à nossa porta. Talvez nos peçam a privatização da Petrobras, talvez queiram a tão sonhada internacionalização da Amazônia…

Se recusarmos, toneladas de ajuda humanitária serão depositadas nas nossas fronteiras.

Lembrem-se, ajuda não se impõe, ajuda se pede. Qualquer imposição de “ajuda” deve ser vista com suspeita.

Pensando no Brasil, na Venezuela e em toda a América do Sul, vale recordar a acertada fala de Getúlio Vargas:

“Já o disse e repito solenemente, que quem entrega o seu petróleo, aliena a sua própria independência.”

 

 

 

 

 

 

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