A Venezuela e o Grupo de Lima: o bombardeio humanitário vem aí?

Em 1999, David Orchard, grande amigo de André Gunder Frank, escreveu um ensaio chamado Humanitarian Bombardy, Month of Two. Este artigo foi o gatilho para mais umas das sacadas geniais de Frank, a “categoria” bombardeio humanitário.

Na ocasião, Frank (1999) denunciava no calor da hora o expansionismo da OTAN frente à Rússia, na época ainda governada pelo grande cipayo Boris Iéltsin – o degenerado; além do sujo papel, embusteiro, do Canadá, país que vende a imagem de imaculado, plural, primor de democracia.

À vista disso, a tão sonhada, por europeus e estadunidenses, balcanização do extenso território Russo, que regressava com toda rigidez nos fins dos anos 90, a despeito do liberalismo ingênuo que rondava as ruas de Moscou e que subiu nos taques em 1991– junto com Iéltsin – para opor-se a volta do Império do mal.

Por conseguinte, o Canadá, junto com seus aliados da OTAN – gozando do poder do Pentágono por trás, é claro -, sem resolução parlamentar, sem uma declaração de guerra e sem nenhuma fração de legalidade, enviou seus aviões de guerra para bombardear a Iugoslávia, uma vez que este país fomentou a resistência aos Nazistas e Fascistas durante a Segunda Guerra Mundial.

hugo chavez e justin trudeau. A Venezuela e o Grupo de Lima: o bombardeio humanitário vem aí?
“Este lugar cheira a enxofre” (CHÁVEZ, 2006).

Vejamos o que a tão referenciada “comunidade internacional”, tão citada por liberais, nos diz1:

  • O julgamento de Nuremberg (que virou filme em Hollywood) determinou que “iniciar uma guerra de agressão… é não apenas um crime internacional, é o crime internacional supremo”. Sendo afirmado por um juiz da Suprema dos Estados Unidos, Robert Jackson, “que o lançamento de uma guerra de agressão é um crime e que nenhuma situação política ou econômica pode justificar”.
  • A carta da ONU proíbe o “uso da força contra um Estado soberano que não tenha cometido agressão em outro Estado”.
  • O artigo 52 de 1980, da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, declara que “qualquer tratado obtido pela força ou ameaça de força, é nulo e sem efeito”.

Não obstante, as potencias imperialistas encontraram uma justificativa apologética, incluso cristã, para viabilizar suas ações, de maneira que a opinião pública, habitualmente racional [sic], pôde ser manufaturada de maneira conveniente.

Qual o motivo para implantar a catástrofe humana em países marcados?

É isso mesmo! A justificativa para invadir – lançar assassinatos e massacres – Estados nacionais praticamente indefesos, é promover ajuda humanitária. Daí Frank anunciou: o bombardeamento humanitário vem aí!

Só esquecem de dizer que a “limpeza étnica”, iniciada na Iugoslávia no apagar das luzes do século XX, passando por Afeganistão, Sudão, Iraque, Líbia, Síria, Ucrânia e Venezuela (?), aumentou a crise humanitária mil vezes, centenas de milhares de mísseis de cruzeiros – incluindo armas ultra-agressivas e proibidas – são  jogados sobre populações civis com a justificativa que são realizações típicas em tais conflitos; o importante é amparar a ajuda humanitária, “a liberdade”… “instaurar a democracia”… “que deus nos ajude” e etc.

Isto posto, em 8 de agosto de 2017, emerge um tal Grupo de Lima, que só não pode ser caracterizado como um sindicato de colônias, em razão de contar com a liderança do “fofo”, do plural e, democrático, Canadá (o mesmo de Kosovo).

E o Tio Sam? Uma ação militar está na agenda em Washington, isto está claro, somente uma esquerda deveras preocupada com as ruas de Paris é que boceja, oscita. No entanto, uma presença imperial aberta ianque, só foi posta em prática em extraordinárias conjunturas, pois ações diretas germinam sérias fissuras no horizonte pan-americanista, isto é, en la Doctrina Monroe.

A luta pela história é um terreno decisivo na política, o The Lima Group, liderado por uma suposta nação “cordial”, mas que na realidade integra o time de vigilantes da ordem do sistema mundial – potências centrais -, não pode passar impunemente, isto é, sem receber uma contraposição radical, ao menos para intelectuais e militantes inclinados ou dedicados à luta emancipatória da nação latino-americana.

Por fim, ficam aqui pitadas de honestidade intelectual, nesta época de aberta dominação da sociologia da ordem, Thinktank’s e youtubers, nada melhor que sentar e traduzir o que o “papa” escreve lá no Vaticano2:

Uma unidade política que tem uma superioridade esmagadora no poder militar e usa esse poder para influenciar o comportamento interno de outros estados é chamada de império. Os Estados Unidos são um império indireto, com certeza, mas um império, no entanto… Se isso estiver correto, nosso objetivo não é combater um rival, mas manter nossa posição imperial e manter a ordem imperial. As guerras imperiais não são tão limitadas [de escalada como quando ainda confrontadas pela União Soviética]. A quantidade máxima de força pode e deve ser usada o mais rápido possível para o impacto psicológico – para demonstrar que o império não pode ser desafiado com impunidade. Agora estamos no negócio de derrubar governos hostis e criar governos favoráveis ​​a nós. Final das guerras imperiais, mas guarnições imperiais devem ser deixadas no local por décadas para garantir a ordem e a estabilidade. Isto é, de fato, o que estamos começando a ver, primeiro nos Bálcãs e agora na Ásia Central e requer uma força terrestre armada para fins de guarnição. Finalmente, a estratégia imperial se concentra na prevenção do surgimento de poderosos e hostis desafiantes para o império: pela guerra, se necessário, mas pela assimilação imperial, se possível. A China será uma grande potência econômica e militar em uma geração, mas ainda não é poderosa o suficiente para desafiar o império americano, e o objetivo dos Estados Unidos é impedir que esse desafio surja. Os Estados Unidos poderiam fazer o que fazem agora: assegurar a seus amigos na Ásia que não permitiremos que a intimidação militar chinesa seja bem-sucedida.

Por Raphael Lobo Duarte Batista Teixeira

Notas de Rodapé

  1. Ver WAR CRIMES LAW APPLIES TO U.S. TOO – former, prosecutor at Nuremberg War Crimes Trial, ROCKLER, 1999.
  2. Stephen Peter Rosen – Professor de segurança nacional e assuntos militares, diretor do Instituto Olin de Estudos Estratégicos dos Estados Unidos.  HARVARD MAGAZINE maio-junho de 2002, pp 30-31.

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