Venezuela resiste ao Império

É notória a preponderância dos países centrais sobre os periféricos em termos de capital, tecnologia, aproveitamento energético e força militar. Com isso, é comum haver a ideia de que os países centrais são “independentes” em relação aos periféricos, cabendo a esses a posição de “dependência” estrutural. Mas, na verdade, a real dependência ocorre no sentido inverso, uma vez que os fatores de preponderância do centro sobre a periferia encontram sua base na exploração dos recursos naturais e ambientais abundantes nos países periféricos e que faltam nos centrais, ainda que constituam matéria-prima para grande parte da cadeia produtiva desses.

Nesse sentido, o controle da exploração e dos preços desses recursos mundo afora constitui, para os países centrais, questão estratégica, vital para o seu desenvolvimento e poderio. Apesar dos países centrais terem conduzido suas estratégias de desenvolvimento para se tornarem mais independentes dos demais, esse desenvolvimento só foi possível devido ao amplo acesso desses a recursos primários em sua maioria localizados em países periféricos. Embora a exploração desses recursos seja comumente descrita como questão econômica, na verdade é, fundamentalmente, uma questão político-militar operacionalizada por diversos instrumentos (financeiros, comerciais, diplomáticos, ideológicos etc.) além da ameaça/intervenção bélica, sempre presente. Afinal, para que mais serve a OTAN? A divisão do mundo entre centro e periferia assume, então, uma dimensão fundamentalmente geopolítica e geoestratégica.

Apesar de todo o palavreado midiático acerca das “fontes alternativas de energia”, a verdade é que o petróleo ainda é e por bastante tempo será a principal fonte primária de energia. E a Venezuela aparece como alvo principal, uma vez que ela é o país com as maiores reservas de petróleo hoje conhecidas, respondendo por 17,9% delas. Ainda mais no atual momento, quando EUA e União Europeia procuram elevar suas taxas de crescimento e desenvolvimento industrial para fazerem frente à arrancada chinesa, baratear o preço do petróleo torna-se urgente para eles. A Venezuela também é o segundo país com as maiores reservas de ouro, metal essencial para a ordem monetária e financeira capitalista em todo o mundo.

A Venezuela resiste ao Império Nicolás Maduro Portal Disparada Felipe Quintas

O governo nacionalista, popular e democraticamente eleito de Maduro é, assim, um obstáculo real ao imperialismo norte-atlântico. Por isso, o país é alvo de sabotagem deliberada, tendo sua moeda e seu povo atacados pelas oligarquias antinacionais do país alinhadas ao Império em um momento em que o baixo preço do barril do petróleo, item que, junto com seus derivados, responde por mais de 80% das exportações do país. A evasão criminosa de divisas e o câmbio ilegal da moeda, práticas terroristas contra a população (como bombas em Caracas, queima de caminhões de alimentos, ataques armados a maternidades e centros de cultura e ao presidente Maduro), e até mesmo a recente auto-proclamação como presidente, defendida por EUA e seus capachos, do líder da Assembleia Legislativa, sem esse sequer ter se candidato a presidente nas últimas eleições (em que à oposição foi permitida a participação em pé de igualdade com o PSUV), tudo isso é utilizado pelas oligarquias venezuelanas para desestabilizar o país e forçar uma intervenção militar estrangeira, desejada abertamente por elas. E, obviamente, com apoio de toda a grande mídia ocidental, intimamente ligada aos interesses imperialistas/financistas que, apesar da sua vontade, não governam a Venezuela.

E, mesmo com todo o estrago causado, o IDH-2018 da Venezuela situa-se à frente dos de Brasil e Colômbia; as taxas de alfabetização, de população abaixo da linha de pobreza, de expectativa de vida e de mortalidade e desnutrição infantis são melhores que antes de Hugo Chávez se tornar presidente; a política industrial iniciada por Chávez e mantida por Maduro permite à Venezuela ter sua própria empresa de carros, a Venirauto (em parceria com o Irã), e de informática, a Venezolana de Industria Tecnologica, além de ter 3 satélites em operação e mais um a ser lançado em breve. Todas essas conquistas só são possíveis devido à força da aliança civil-militar nacionalista que governa a Venezuela, permitindo a um país subdesenvolvido, apesar de todas as dificuldades e sabotagens, alçar um patamar superior ao daqueles que renunciam a sua própria grandeza, como o Brasil. E isso se reflete no fato de haver muito mais migrantes colombianos na Venezuela (cerca de 5.600.000) que o contrário (cerca de 1.032.000), apesar do sensacionalismo midiático inverter a realidade.

Então, é fundamental que os nacionalistas e trabalhistas do chamado terceiro mundo apoiem o governo Maduro, pois as dificuldades e sabotagens que esse sofre não são específicas da Venezuela, mas as que encontram e encontrarão qualquer governo nacional-popular nos países subdesenvolvidos, caso demonstrem alguma força para resistir às investidas imperialistas contra a soberania de seus países. Nenhum país consegue se desenvolver e melhorar os níveis de vida de toda sua população sem dispor de soberania sobre suas riquezas, de modo a aproveitá-las para dentro, impedindo que sejam saqueadas por outros. Em última instância, a grande disputa no mundo é entre a soberania nacional dos países subdesenvolvidos em prol do seu desenvolvimento e bem-estar, defendida pelo governo Maduro na Venezuela, e a cobiça imperialista dos países centrais apoiada pelas oligarquias do terceiro mundo, para espoliar desse os recursos naturais que o centro não tem mas que precisa para sustentar e ampliar a riqueza e o poder das suas empresas e Estados.

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