Vitória de Assad: por que há uma guerra na Síria e como ela está?

A guerra na Síria ganhou novos contornos neste início de semana na medida em que o exército da Síria, subordinado ao presidente Bashar al-Assad, garantiu o controle territorial dos arredores de Aleppo, a maior cidade do país.

O evento simboliza uma grande vitória do governo contra as forças rebeldes, pois pela primeira vez em muito tempo encontra-se restabelecida a comunicação e integração física da capital, Damasco, com a cidade de Aleppo. O avanço estratégico consiste na liberação da estrada M5, que conecta ambas.

Trajeto da rodovia M5 que conecta Damasco a Aleppo, próxima da região de Idlib.

O trecho da M5 (grifada no mapa em azul) que impossibilitava a ligação entre as cidades coincide com a região de Idlib (contornada no mapa em laranja), na parte oeste de Aleppo.

Grupos rebeldes, mas também grupos jihadistas, como o HTS, ex-segmento da Al-Qaeda operante na Síria, estavam presentes em Idlib. Desde fins de 2019 o governo sírio vinha bombardeando a região, com apoio russo, e finalmente conseguiu afastar seus inimigos, cuja posição privilegiada possibilitava não raros ataques a Aleppo.

Ocorre que um outro país, a Turquia, também possui interesses em Idlib. Em meio a tratamentos com a Rússia em em fins de 2016 e em 2017 (acordos de Astana e Sochi), os turcos garantiram sua presença nas proximidades, que fazem fronteira com a Turquia.

Apesar de estarem em lados opostos do conflito, Turquia e Rússia disparam seus aparatos diplomáticos com habilidade e inclusive negociam em conjunto o combate aos grupos jihadistas.

Desde segunda-feira, representantes dos dois países se encontraram para apaziguar as tensões irradiadas de Idlib, que já geraram o deslocamento massivo de mais de 800 mil pessoas para a fronteira turca. O governo de Erdogan, cuja preocupação é impedir que se consolide a posição das milícias curdo-sírias (YPG) no norte da Síria – em função de sua conexão com as forças guerrilheiras curdas da Turquia -, também se ocupa agora com o drama humano que se instalou após a elevação da violência.

O que se apresenta como uma demonstração de poder quase definitiva de Bashar al-Assad pode rapidamente se transformar numa reação equivalente por parte da Turquia, cujo poderio é enorme e cujo peso geopolítico é indispensável para o Oriente Médio. Daí a importância de que as conversas entre os russos e os turcos ocorram rapidamente e soluções sejam arquitetadas para socorrer as vidas de milhares de sírios indefesos, vítimas de um conflito que já dura quase uma década.

Importantes quadros políticos iranianos chegaram à Síria para uma demonstração de apoio pela vitória do governo. O Irã e a Rússia são os principais atores responsáveis pela sustentação de Bashar al-Assad. Quando, em 2013, o Exército Livre da Síria foi formado por forças rebeldes financiadas por países como os EUA e o Qatar, Assad se viu na iminência da queda.

O pretexto da guerra foi a Primavera Árabe, quando manifestações se intensificaram nas ruas de Damasco pedindo a deposição do presidente. Rapidamente, o ex-presidente norte-americano Barack Obama pediu a mudança de regime.

A indisposição dos Estados Unidos com o governo sírio, no entanto, remonta ao ano de 1949, quando a CIA derrubou o presidente eleito Shukri-al-Quawtli, após sua oposição a um projeto norte-americano de construção de um duto para transportar petróleo através do país.

A rivalidade foi multiplicada entre 2009 e 2010, quando Assad se recusou a participar do projeto de um gasoduto com Qatar, Arábia Saudita, Jordânia e Turquia em prol de um projeto alternativo que conectava o Irã ao Líbano através da Síria.

Em nível regional, a direção dos fluxos de petróleo e gás é capaz de reposicionar os atores locais na hierarquia de poder. Em nível mais abrangente, contudo, a questão que se coloca é se a Europa dependerá de recursos energéticos de países mais dispostos a colaborar com os europeus ou de países como Irã e Síria, tradicionalmente ocupando o polo oposto.

Dado o histórico de intervenções ocidentais na Síria e o acirramento do choque de objetivos, é duvidoso aceitar que as manifestações da Primavera Árabe no país ocorreram de forma espontânea e livre de interesses externos.

A cronologia das rivalidades geopolíticas na Síria pode ser vista em mais detalhes aqui.

Os próximos acontecimentos serão delineados pela resposta turca, pela posição russa e pela continuidade da ofensiva do governo contra os grupos rebeldes restantes no noroeste da Síria. A depender das movimentações futuras, a vitória de Assad pode sinalizar o começo do fim do conflito.

2 Comentários

  • Sim, a Petrobras pode praticar preços dos derivados de Petróleo, desvinculados do dólar. Paralelemente, é fundamental que a Empresa, reative suas refinarias a plena carga, além, de construir novas refinarias. Quando a privatização da Petrobras, é um absurdo, aliás, devemos retomar tudo que já foi privatizado no sistema Petrobrás, inclusive o Pré-Sal, particularmente Libra, cujo ato criminoso foi praticado por Dilma, pelo PT, ao leiloá-lo!!!!

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