A dor pode embaçar a visão, mas voto não é hóstia consagrada

Está na hora de os institutos de pesquisa fazerem um levantamento com os eleitores decepcionados de Jair Bolsonaro. Apurar os motivos de suas frustrações e em quem voltariam se as eleições fossem hoje. Obviamente, uma pesquisa assim poderia incorrer em vício se contemplasse os truculentos boçais e messiânicos, aqueles que espalham ameaças e ofensas e que, certamente, não caracterizam o conjunto dos eleitores que apostaram no atual governo por conta de suas decepções com o PT e a chamada “velha política”.

Está na hora também das forças progressistas pararem de estigmatizar os eleitores em geral de Bolsonaro. Muitos foram induzidos pelas fakenews, perla desinformação e pela ilusão pueril de soluções tiradas de cartolas mágicas, ou seja lá o que for – enfim, que acreditaram fielmente que o atual governo poderia mudar as coisas. A sugestão aqui é: não estigmatizar uns e, ao mesmo tempo, reagir e atacar os fascistas.

Muitos eleitores são pessoas que se iludiram com Bolsonaro, imaginando que ele iria acabar com a corrupção e promover o desenvolvimento do país – justamente duas situações que vão se agravando com a falta de projeto para resolver os problemas econômicos e com a cínica aproximação de Bolsonaro com o chamado centrão. Sem falar dos recentes fatos envolvendo as mudanças no Ministério da Saúde e na Polícia Federal.

Esther Solano fala isso de outra maneira em artigo na Carta Capital. Diz para focarmos naqueles que não sabem o que pensar ou fazer hoje diante de tantos descalabros do atual governo: “Pensemos nos demais. Na maioria. Vamos manter o foco em combater os fascistoides e disputar a política com os outros, aqueles que votaram por decepção, por antipolítica, por antipetismo, pela Lava-Jato, por desesperança, que hoje estão arrependidos sem saber para onde ir politicamente.”

Parece vaga a informação que circula de que Jair Bolsonaro teria 30 por cento do eleitorado. Passa-se a ideia de que 30 por cento da população ainda o apoiariam. População é uma realidade, eleitorado é outra. Mesmo no ano do pleito, eleitorado é uma situação em janeiro e outra em outubro. Os resultados numéricos das últimas eleições contrariam a ideia tanto de apoio eleitoral como de apoio da população, considerando os votos válidos dados a Ciro Gomes no primeiro turno e a Haddad no segundo, além dos brancos e nulos.

Nas redes sociais, nas rodas (mesmo virtuais por conta do isolamento) entre amigos e parentes, colegas de trabalho, em vez de a esquerda e as forças democráticas ficarem corroborando a disseminação das ameaças, na base do ressentimento e da perplexidade do suposto absurdo, há que se começar a fazer uma verdadeira guerrilha de ideias e informações, como já fazem importantes líderes políticos do cenário político nacional.

Institutos de pesquisa também são importantes influenciadores, assim como, dentre outros, jornalistas que sabem que a notícia não se reduz ao espelho do fato, mas sim compreendendo também as interpretações que se fazem sobre os fatos, crises, tendências e movimentos em geral.

Duas questões devem ser pensadas. Em primeiro lugar, juntar forças com aqueles inclusive de quem discordamos, tendo como inimigo principal Bolsonaro. Questões políticas e ideológicas de princípios, bem como visões de mundo divergentes inevitavelmente permanecem, mas podem ser negociadas no curso da política, pois algo já se mostrou evidente várias vezes – que é a existência de um inimigo principal e comum de amplas forças do espectro político. A TV Globo, por exemplo, não foi em outros tempos, mas hoje é nossa aliada.

A outra é o fato de a tática da guerrilha de ideias estar baseada em algo que a ciência política aborda em relação ao significado do voto. Já escrevi sobre isso tempos atrás, coisa aparentemente óbvia, mas necessitando ser sempre lembrada. Voto não é cheque em branco endossado, nem é hóstia consagrada. Se algo precisa ser sacralizado é o combate permanente contra o fascismo. Este é a cara maquiada do ocidente capitalista sempre latente nos conflitos de classes.

Lembro aqui de Guilhermo O’Donnell, que usa expressão emblemática para se referir ao voto, qual seja, “uma aposta institucionalizada”. Aposta porque ninguém garante que mesmo o partido, ou o político, em quem acreditamos não vai nos trair uma vez eleito. Embora a democracia não seja um jogo de pôquer, ela se caracteriza, dentre outras coisas, por um jogo aberto, dinâmico e incerto.

Tem um caráter institucionalizado no sentido de implicar regras de alternância do poder e a possibilidade de afastarmos nas eleições seguintes, ou mesmo em casos de impedimento durante o mandato, o governante que traiu nossas expectativas. E Bolsonaro parece que só não traiu os truculentos messiânicos, os boçais, os imbecis e os paus mandados que imaginam uma sociedade sem federação, sem judiciário e sem legislativo.

A tática de guerrilha de ideias passa, nesse sentido, por ações permanentes de constrangimento. Pelo reforço do anúncio do ridículo, a reiteração de que somente boçais o apoiam – como aqueles da claque do chiqueirinho do Planalto – e não os que têm o mínimo bom senso do que sejam as condições razoáveis para o convívio democrático e o que significa democracia para o desenvolvimento econômico.

Recuso-me a acreditar que parcelas consideráveis da população sejam compostas por boçais, ainda que haja “pouco de educação diretamente na empiria da dor”, para encerrar com uma frase dolorosa e lúcida de Alysson Leandro Mascaro.

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