WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS: Um segundo turno de cacos

Difícil vislumbrar onde Fernando Haddad desencavará votos para superar a diferença com que Jair Bolsonaro o derrotou em sete de outubro. Dentro da margem de erro, os primeiros números da pesquisa Datafolha (10/10) indicam a mesma distância estampada ao final do primeiro turno: dezesseis pontos percentuais em favor de Bolsonaro. O segundo turno não promete uma nova eleição; antes, a projeção do primeiro turno, com vitória do candidato sobre o qual a população nada sabe além de discursos e declarações sem lastro na realidade. Governar não se resume a distribuir armas à população, recusar apoio do Estado a instituições de promoção social ou leiloar o patrimônio público. Na realidade, nem creio que possa fazê-lo, a menos de um autogolpe preventivo, no País em que os oximoros salvam a face da ilegalidade. Há desastres bem mais à mão e mais ao sabor dos reacionários nacionais e internacionais.

Na ponta do lápis, o Guilherme Boulos, o PCdoB, incapaz de atender às exigências da nova lei eleitoral, e os desgarrados do PSB, não têm votos. A esperança de cooptar os marinistas residuais, além de infundada, acrescentaria praticamente nada, uma votação inferior à do cabo bombeiro. A ampla frente democrática se resumirá a manifestos, declarações de artistas e reuniões de autoajuda. O departamento de propaganda remunerada insistirá na divulgação de pesquisas incompetentes. Provavelmente, inútil.

Só quem dispôs de votos até o fim do primeiro turno, além de Bolsonaro e Haddad, foi Ciro Gomes. Ocorre que, ao contrário do que os fanáticos difundiram, Ciro não é um coronel, tampouco um caudilho, e os que nele votaram decidirão como fazê-lo, agora, no segundo turno, alheios aos protocolares acordos que PDT, PT, PCdoB e PSB acreditam tenham significativo valor. Infelizmente, não têm quase nenhum. E os sinais dos eleitores ciristas não parecem amistosos. As projeções dos institutos de pesquisa apontavam reiteradamente vitória de Ciro sobre Bolsonaro no segundo turno. Mas Ciro foi derrotado pelo PT no primeiro.

Fernando Haddad buscará raptar votos de Jair Bolsonaro, eis o seu destino. Para tanto, fará todas as promessas exigidas pelos conservadores instalados nos bancos e nas empresas. Apresentada pelos violentos centuriões petistas, para variar, como genial estratégia, na realidade inverterá as ênfases do Lula de 2002: ao contrário de acenar à direita, apoiado em sólido projeto de resgate dos pobres e miseráveis, Haddad ofertará joias preciosas, reservando ao antigo povo de Lula miçangas de consolação. E Lula, preso, conhecerá, se tanto, as costas dos seus fiéis bajuladores. Que o diga José Dirceu.

Ganhem ou não, Jair Bolsonaro jamais escapará do século XIX, reacionário em costumes e avesso aos trabalhadores na economia; Fernando Haddad enterrará a esquerda petista na decadência do século XX, e com ela a pompa da hegemonia.

Por Wanderley Guilherme dos Santos

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